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11 de setembro de 2014
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Matéria de Capa - Construção Imobiliária

Vila Itororó, um resgate da memória de São Paulo

Imóvel da década de 1940 será recuperado com projeto de Décio Tozzi e Benedito Lima de Toledo, com proposta de se tornar um espaço destinado às atividades culturais

A Vila Itororó, localizada na Bela Vista, região central da cidade de São Paulo, é um conjunto arquitetônico da década de 1920, com singular componente histórico e urbano, que teve a mesma trajetória de outros edifícios remanescentes da época: ao longo do tempo deteriorou-se e foi abandonado à própria sorte. A vila, formada por 37 casas, foi construída pelo empreiteiro português Francisco de Castro, entre 1922 e 1929, a partir de material de demolição do antigo Teatro São José. Foram  reaproveitadas colunas gregas e outros elementos.

A construção foi pioneira no Brasil, justamente por aproveitar material “reciclado”. Além disso, inovou ao criar uma piscina particular com água vinda do Riacho Itororó, algo inexistente na época.

Mesmo tendo seu mobiliário desaparecido e suas instalações invadidas e ocupadas irregularmente para moradia, a edificação acabou tombada pelos órgãos de patrimônio histórico municipal, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), e o estadual, o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico).  No entanto, vários projetos de recuperação foram se arrastando ao longo do tempo. Agora, um deles deve finalmente sair do papel, depois que a prefeitura de São Paulo selou uma parceria com o banco Itaú Unibanco e com a Construtora Camargo Corrêa, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Serão investidos R$ 4 milhões para recuperar o palacete e as mais de 20 casas construídas na década de 1920.  O projeto de restauro, de autoria dos arquitetos Décio Tozzi e Benedito Lima de Toledo, foi desenvolvido em 1974 e aprovado pelos órgãos de preservação em 2010.

As intervenções se encontram na primeira em sua etapa – que deve se estender até outubro deste ano – e compreendem análise estrutural das edificações, limpeza geral do terreno, instalação do canteiro de obras, drenagem do solo, demolições e remoção de entulho.  Também será iniciado o trabalho de consolidação das construções que compõem o conjunto arquitetônico. Essa fase está prevista para ser concluída em dois anos.

As diretrizes de uso do conjunto após o restauro levam em consideração aspectos como a reprodução da diversidade cultural da cidade como uma típica “vila paulistana”. O projeto prevê espaços de lazer e convivência, incluindo museu mul


A Vila Itororó, localizada na Bela Vista, região central da cidade de São Paulo, é um conjunto arquitetônico da década de 1920, com singular componente histórico e urbano, que teve a mesma trajetória de outros edifícios remanescentes da época: ao longo do tempo deteriorou-se e foi abandonado à própria sorte. A vila, formada por 37 casas, foi construída pelo empreiteiro português Francisco de Castro, entre 1922 e 1929, a partir de material de demolição do antigo Teatro São José. Foram  reaproveitadas colunas gregas e outros elementos.

A construção foi pioneira no Brasil, justamente por aproveitar material “reciclado”. Além disso, inovou ao criar uma piscina particular com água vinda do Riacho Itororó, algo inexistente na época.

Mesmo tendo seu mobiliário desaparecido e suas instalações invadidas e ocupadas irregularmente para moradia, a edificação acabou tombada pelos órgãos de patrimônio histórico municipal, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), e o estadual, o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico).  No entanto, vários projetos de recuperação foram se arrastando ao longo do tempo. Agora, um deles deve finalmente sair do papel, depois que a prefeitura de São Paulo selou uma parceria com o banco Itaú Unibanco e com a Construtora Camargo Corrêa, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Serão investidos R$ 4 milhões para recuperar o palacete e as mais de 20 casas construídas na década de 1920.  O projeto de restauro, de autoria dos arquitetos Décio Tozzi e Benedito Lima de Toledo, foi desenvolvido em 1974 e aprovado pelos órgãos de preservação em 2010.

As intervenções se encontram na primeira em sua etapa – que deve se estender até outubro deste ano – e compreendem análise estrutural das edificações, limpeza geral do terreno, instalação do canteiro de obras, drenagem do solo, demolições e remoção de entulho.  Também será iniciado o trabalho de consolidação das construções que compõem o conjunto arquitetônico. Essa fase está prevista para ser concluída em dois anos.

As diretrizes de uso do conjunto após o restauro levam em consideração aspectos como a reprodução da diversidade cultural da cidade como uma típica “vila paulistana”. O projeto prevê espaços de lazer e convivência, incluindo museu multimídia sobre a Vila Itororó e a história de São Paulo na década de 1920, além de residência artística, salas de ensaio, espaços de cinema, teatro, dança, circo, oficinas e playground para crianças.

O conjunto inclui  a casa principal com colunata (vários níveis);  casa das carrancas;  jardins com pista para espetáculo ou dança pública;  área esportiva (bola ao cesto, piscina, playground);  casas várias. O objetivo enfatizado por Tozzi é devolver à população uma área remanejada para seu lazer/cultura sem perda de sua rentabilidade pelo município, que, com as rendas obtidas nos aluguéis dos diversos imóveis, tornará a Vila Itororó autossuficiente para sua preservação, conservação e gastos administrativos.

Reconstrução do passado

Para o arquiteto Décio Tozzi, um dos autores do projeto, a cidade de São Paulo, passa por uma evolução única na história do urbanismo com característica “autofágica”. “A velocidade desse quadro de transformação urbana apresenta um sentido predatório, voraz em seu aspecto especulativo, trazendo consequências desastrosas à qualidade do meio ambiente e à preservação do patrimônio cultural da cidade. Os códigos arcaicos e a falta de preocupação dos poderes públicos com os aspectos de documentação e preservação deixaram São Paulo desprotegida diante desse processo de devastação”, destaca ele.

A Vila Itororó,  a meia encosta do vale do Itororó,  segundo ele, destaca-se na paisagem urbana paulistana justamente  “por sua feição original, de ecletismo ou mesmo bizarria, do ponto de vista arquitetônico, refletindo um aspecto incomum do imigrante enriquecido e, nesse caso específico, imaginoso”.

Com disposição irregular, topografia acidentada característica dos vales de São Paulo, a área onde se implantou o conjunto relaciona-se com a paisagem local sem se submeter aos traçados convencionais.   “A organização da vila, em torno de um eixo central, de traçado sinuoso, valorizando o espaço interno no nível inferior da área, apresenta uma singela e movimentada volumetria que evoca as soluções de Alfama e inúmeras vilas e aldeias mediterrâneas. Os patamares laterais entre as casas se configuram nos moldes de piazzetas com equipamentos comunitários, e os acessos nas escarpas foram solucionados com o uso de arrimos descendentes que formam sucessivos planos de jardins desde o nível da vertente (Rua Martiniano de Carvalho) até o espaço comunitário axial do nível inferior da vila”, destaca Tozzi.  Tal característica levou a uma “colagem” de surpreendente originalidade, com um acento onírico e pitoresco, que passou a ser identificado espontaneamente como a Vila Surrealista. “A nascente que havia na área foi aproveitada por seu construtor para a implantação da primeira piscina particular da cidade, que posteriormente se transformou em equipamento de lazer da vizinhança”, conta o arquiteto.

Segundo Tozzi, a proposta para uma destinação sociocultural da Vila Itororó foi desenvolvida com base no tripé função de descanso, função de divertimento, recreação e entretenimento.  “Essa tríplice função poderia ser alcançada nesse projeto, por meio de uma destinação cultural em diversos níveis, porém não necessariamente desvinculada do aspecto de rentabilidade econômica que além de tornar o projeto viável também faria com que ele servisse de módulo para futuras realizações nessa direção em nossa capital”.

História

O mestre de obras Francisco de Castro, gerente de uma indústria de tecidos em Americana, transferiu-se para São Paulo em meados do século 19. Homem social, tinha o costume de promover festas e reuniões enquanto ampliava seu palácio gradativamente.  “Era determinado e preciso o espaço do sonho ascensional. Os materiais comprados em demolições, tendo como base o antigo Teatro São José, foram reinterpretados na “colagem” que conferiu ao conjunto um caráter singular pela irregularidade do desenho e, pelas associações oníricas de ornatos, carrancas femininas, esculturas de animais e cariátides”, resume Tozzi.

Segundo ele, a ênfase dada nas proporções da casa principal em busca do monumental, as gigantescas colunas, os detalhes figurativos conotando defesa da propriedade, o erotismo e as fantásticas associações de elementos decorativos, ao lado de um desenvolvido conhecimento construtivo e apurada técnica artesanal, evidenciam os elementos de contradição do mestre Castro: o impossível sonhado e a realização deformada.

Seu discernimento de mestre começou pela escolha do sítio onde havia uma nascente com água de boa qualidade. Tirou partido desse fato: construiu uma piscina, equipamento de lazer sem precedentes em casas particulares de São Paulo. Em seu projeto de ostentação, planejou uma casa de banhos, um espaço para projeções cinematográficas e até um cassino que não pôde ser realizado, pois ele contraiu tuberculose e faleceu, e o imóvel foi tomado pelos credores. Posteriormente, foi feita a doação do conjunto a uma instituição de caridade, Santa Casa de Indaiatuba - fato que impediu a descaracterização, mas não a deterioração e o extravio de bens móveis. Abandonada, a vila foi apropriada para a habitação coletiva de caráter subumano e somente agora tem seu valor arquitetônico e histórico resgatado.