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27 de julho de 2014
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Edição Especial Número 50

Fonte Nova renascida

Estádio baiano foi implodido e retorna na Copa 2014 como um dos mais modernos do Brasil

O mito grego da fênix, a ave que renasce das próprias cinzas, é a metáfora mais aproximada para explicar o renascimento do estádio Fonte Nova. Na mitologia grega, o pássaro quando morria entrava em autocombustão e, passado algum tempo, voltava à vida. Há pouco mais de seis anos, uma tragédia principiou o fim do antigo estádio Octávio Mangabeira ou Fonte Nova como é popularmente conhecido, inaugurado em 1951. No dia 25 de novembro de 2007, durante uma partida entre o Bahia e o Vila Nova, pela penúltima rodada do octogonal final da Série C do Campeonato Brasileiro, ocorreu o desabamento de parte da arquibancada superior. Havia pouco mais de 60 mil pessoas no estádio naquele dia. Com o desastre, 30 pessoas caíram junto com a arquibancada. Dessas, 11 despencaram de uma altura de 20 metros e caíram do lado de fora do estádio. Seis morreram na hora e uma chegou a ser socorrida, mas faleceu a caminho do hospital. Outras 13 tiveram ferimentos graves e sobreviveram. Após a tragédia, a Fonte Nova foi interditada e acabou sendo implodida para renascer como um dos 12 estádios da Copa do Mundo de 2014.

Superada a tragédia, a Arena Fonte Nova surge como o mais moderno equipamento multiuso da Bahia. Localizada em Salvador, traz uma estrutura inédita para o Estado, com potencial para receber partidas de futebol da Fifa e grandes eventos esportivos, além de inserir a região no circuito dos shows internacionais e do turismo de negócios, segundo seus controladores. Fruto da Parceria Público-Privada (PPP) entre o governo da Bahia e a Fonte Nova Negócios e Participações (FNP), formada pelas construtoras OAS e Odebrecht, a Arena Fonte Nova foi inaugurada em 7 de abril de 2013, com o maior clássico de futebol do Norte-Nordeste, o BAVI, disputado entre os times do Esporte Clube Bahia e Esporte Clube Vitória.

No primeiro ano de operação, a nova arena foi palco de partidas de competições nacionais e internacionais, incluindo três disputas da Copa das Confederações, com jogos das seleções do Uruguai, Nigéria, Itália e Brasil. Na Copa do Mundo recebe as seleções da Espanha, Holanda, Alemanha, Portugal, Suíça, França, Bósnia, Irã, além de partidas das oitavas e das quartas de final. Com capacidade para 50 mil pessoas em assentos cobertos – número aumentado para 55 mil na Copa do Mundo –, a are


O mito grego da fênix, a ave que renasce das próprias cinzas, é a metáfora mais aproximada para explicar o renascimento do estádio Fonte Nova. Na mitologia grega, o pássaro quando morria entrava em autocombustão e, passado algum tempo, voltava à vida. Há pouco mais de seis anos, uma tragédia principiou o fim do antigo estádio Octávio Mangabeira ou Fonte Nova como é popularmente conhecido, inaugurado em 1951. No dia 25 de novembro de 2007, durante uma partida entre o Bahia e o Vila Nova, pela penúltima rodada do octogonal final da Série C do Campeonato Brasileiro, ocorreu o desabamento de parte da arquibancada superior. Havia pouco mais de 60 mil pessoas no estádio naquele dia. Com o desastre, 30 pessoas caíram junto com a arquibancada. Dessas, 11 despencaram de uma altura de 20 metros e caíram do lado de fora do estádio. Seis morreram na hora e uma chegou a ser socorrida, mas faleceu a caminho do hospital. Outras 13 tiveram ferimentos graves e sobreviveram. Após a tragédia, a Fonte Nova foi interditada e acabou sendo implodida para renascer como um dos 12 estádios da Copa do Mundo de 2014.

Superada a tragédia, a Arena Fonte Nova surge como o mais moderno equipamento multiuso da Bahia. Localizada em Salvador, traz uma estrutura inédita para o Estado, com potencial para receber partidas de futebol da Fifa e grandes eventos esportivos, além de inserir a região no circuito dos shows internacionais e do turismo de negócios, segundo seus controladores. Fruto da Parceria Público-Privada (PPP) entre o governo da Bahia e a Fonte Nova Negócios e Participações (FNP), formada pelas construtoras OAS e Odebrecht, a Arena Fonte Nova foi inaugurada em 7 de abril de 2013, com o maior clássico de futebol do Norte-Nordeste, o BAVI, disputado entre os times do Esporte Clube Bahia e Esporte Clube Vitória.

No primeiro ano de operação, a nova arena foi palco de partidas de competições nacionais e internacionais, incluindo três disputas da Copa das Confederações, com jogos das seleções do Uruguai, Nigéria, Itália e Brasil. Na Copa do Mundo recebe as seleções da Espanha, Holanda, Alemanha, Portugal, Suíça, França, Bósnia, Irã, além de partidas das oitavas e das quartas de final. Com capacidade para 50 mil pessoas em assentos cobertos – número aumentado para 55 mil na Copa do Mundo –, a arena oferece 10 níveis e três anéis de arquibancadas. Conta com 70 camarotes, aproximadamente duas mil vagas de estacionamento, sala de imprensa, 39 quiosques de alimentação, 10 elevadores, 94 sanitários, lojas, além de um centro cultural e de uma área de 1.300 m² com vista para o campo e para o Dique do Tororó. Em dias de jogos ou eventos, a Arena Fonte Nova emprega até três mil profissionais, entre diretos e indiretos.

Desde o período de obras, iniciado em 2010, mais de 10 mil pessoas estiveram envolvidas com a implosão da antiga estrutura, bem como a edificação e instalação do novo equipamento. Um dos destaques da nova Fonte Nova é a cobertura, feita de um material chamado PTFE, um plástico de alta performance reforçado com fibras de vidro, ancorada por cabos de aço tensionados. Pela primeira vez no Brasil se utilizou do sistema Big Lift, o grande içamento dos cabos de aço tensionados. A cobertura abriga 100% dos assentos, alcançando 36 mil m² de área. Segundo Gustavo Junqueira, gerente de operações da Arena Fonte Nova, o projeto tem como vantagens maior flexibilidade e leveza da cobertura, que é consequência da nova tecnologia de materiais utilizados. O diferencial do plástico está na durabilidade e na facilidade para manutenção e limpeza, pois a membrana é autolimpante.

São ao todo 28 mil m² de membrana pesando 1,3kg/m². “O conceito de estrutura tensionada utilizada na cobertura da arena é flexível por natureza. Além disso, a membrana em PTFE possui alto índice de refletância solar, que evita o efeito “ilha de calor” no micro clima da cidade e também não bloqueia totalmente a luz solar, permitindo aproveitamento de iluminação natural, que contribui para a eficiência energética”, explica Junqueira. O processo de confecção da membrana começou nos EUA, com a produção da matéria-prima, e depois seguiu para a manufatura em Tihuana, no México. Para a instalação, o consórcio construtor contratou uma empresa americana de suporte técnico para fabricação e montagem, especializada em instalações de membranas. A equipe de instalação reuniu engenheiros da Alemanha, Suíça, França, EUA e Brasil, contando com o apoio de aproximadamente 75 profissionais qualificados, que incluiu um grupo de montadores alpinistas especializados em construções civis.

Mas os desafios de engenharia vencidos na construção da Arena Fonte Nova não se restringiram à cobertura, como lembra o gerente de operações. Segundo Gustavo Junqueira, a demolição por implosão do estádio existente foi um grande marco, por seu sucesso atrelado ao grande trabalho de engenharia realizado. “Cada etapa teve sua importância, desde a preparação da antiga estrutura para a implosão e a própria implosão, que foi marcante”, diz Junqueira. A implosão durou 17 segundos e exigiu 700 quilos de explosivos. Cerca de 1.100 pessoas estiveram envolvidas no plano de evacuação do entorno, formado por equipes multidisciplinares coordenadas pela Defesa Civil e com representantes da Polícia Militar, Guarda Municipal, Samu e Corpo de Bombeiros. Por segurança, foram evacuados 962 imóveis e 2.467 moradores e comerciantes saíram de seus imóveis por um período de cinco horas. Os serviços de demolição foram executados pela Arcoenge Engenharia, que contou com acompanhamento da empresa norte-americana CDI Controlled Demolition.

Outro obstáculo a ser vencido na reconstrução da Arena Fonte Nova envolveu a logística de toda a operação, tendo em vista a localização da obra, em meio ao centro urbano de Salvador. Com a demolição da antiga estrutura, foram gerados 29 mil m³ de concreto e, segundo Junqueira, 100% do coletado foi reciclado em equipamentos de britagem, com capacidade de processar 100 m³ de concreto por hora. Parte do material foi reaproveitada em serviços de terraplanagem e pavimentação na própria obra e o excedente foi utilizado em obras de infraestrutura em Salvador e Região Metropolitana.

O transporte dos resíduos destinado para áreas de bota-fora foi feito em caminhões caçamba, utilizando as rotas e os horários acordados com os órgãos reguladores. “A Arena Fonte Nova superou as recomendações da Fifa e foi o primeiro estádio do Brasil a conquistar o nível prata da certificação internacional LEED”, afirma Junqueira, lembrando do selo verde que identifica o empreendimento como sustentável e que é utilizado em mais de 140 países. Diversas características permitem que a Fonte Nova seja considerada um empreendimento ecologicamente correto, segundo o executivo, além da reutilização de 100% do concreto do antigo estádio, a cobertura que capta água da chuva para o reuso, as brises da fachada, possibilitando a ventilação e iluminação natural, enquanto protege da radiação solar excessiva, e a utilização de lâmpadas de alto rendimento, atendendo normas internacionais de eficiência energética.

Em relação à reconstrução do estádio, outros desafios de engenharia tiveram de ser superados, entre eles, o da topografia, bastante acidentada (em desníveis) na região, associado a um terreno heterogêneo geotecnicamente, tornando-se necessárias as mais diversas soluções em termos de fundação, com perfis (estacas) metálicos e de concreto, além de blocos e sapatas. De acordo com Gustavo Junqueira, conceitualmente a estrutura da Arena Fonte Nova é uma solução pré-moldada e, diante da complexidade do projeto, diversas peças foram moldadas in loco, como pilares, vigas, lajes, paredes de enrijecimento. “Percentualmente, significa que 75% do volume total da superestrutura em pré-moldados”, diz Junqueira.

Existem peças pré-moldadas em todos os setores da arena: pilares, vigas, lajes treliçadas, arquibancadas e escadas. Já o projeto arquitetônico da Fonte Nova manteve o formato de ferradura do antigo estádio, mas se destaca pela inovação, segundo o gerente. Uma das novidades é a aproximação das arquibancadas ao campo, otimizando as condições de visibilidade do público. O caráter multifuncional é outra inovação. O contrato da PPP foi celebrado em 2010 e previa um valor total de R$ 591,7 milhões para a reconstrução do estádio. Segundo Junqueira, devido às exigências do Caderno de Encargos da Fifa, publicado quando a obra já se encontrava em curso, foi adicionar R$ 97,7 milhões ao custo total do projeto.

Raio X

Estádio

Área total do terreno: 116 mil m²

Área da arena: 90 mil m²

Altura norte da arena: 28 metros

Altura sul da arena: 42 metros

Campo: 105 m x 68 m, com 10 m de distância nas laterais e 12,3 m nas linhas de fundo em relação às arquibancadas

Sistema de irrigação: 35 aspersores

Obra

Armação da Arena: 5,2 mil toneladas

Volume de concreto: 45 mil m³

Estrutura metálica: 1,8 mil toneladas

Pré-moldados: 12 mil peças

Estacas: 65 mil metros

Fornecedores baianos: 70% do total

Membrana impermeável da cobertura: 28 mil m²

Gramado: 9 mil m²