Assessoria de Imprensa
14/05/2026 00h01
*por Marcus Granadeiro
A gestão de obras públicas municipais no Brasil enfrenta hoje um momento crítico. De um lado, o crônico atraso nas entregas e a paralisação de projetos; de outro, um apagão crescente de mão de obra qualificada na engenharia.
Ao fazer uma análise de estudos da engenharia, é possível entender que os principais fatores por trás dos atrasos em edificações públicas são as constantes mudanças de escopo e a baixa maturidade na gestão dos canteiros de obras.
Esse cenário é agravado por falhas estruturais recorrentes, evidenciadas em auditorias do
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*por Marcus Granadeiro
A gestão de obras públicas municipais no Brasil enfrenta hoje um momento crítico. De um lado, o crônico atraso nas entregas e a paralisação de projetos; de outro, um apagão crescente de mão de obra qualificada na engenharia.
Ao fazer uma análise de estudos da engenharia, é possível entender que os principais fatores por trás dos atrasos em edificações públicas são as constantes mudanças de escopo e a baixa maturidade na gestão dos canteiros de obras.
Esse cenário é agravado por falhas estruturais recorrentes, evidenciadas em auditorias do Tribunal de Contas da União, como projetos mal elaborados pelas próprias prefeituras, ausência de padronização, baixa transparência e fiscalização insuficiente.
Mas o problema não é apenas de gestão. O Brasil vive um déficit crítico de profissionais qualificados.
Dados da Confederação Nacional da Indústria indicam a falta de mais de 75 mil engenheiros no mercado. Ao mesmo tempo, levantamentos da FGV mostram que mais de 70% das empresas da construção têm dificuldade para contratar. A raiz do problema é estrutural: segundo o Confea, as matrículas em engenharia civil caíram mais de 50% nos últimos anos.
Nas prefeituras, a situação é ainda mais sensível, pressionada por aposentadorias e pela falta de planos de carreira competitivos.
A resposta para solucionar o desafio passa pela digitalização integral da engenharia pública.
Não se trata apenas de adotar ferramentas para acelerar processos analógicos, mas de transformar completamente a forma como projetos são concebidos, executados e gerenciados ao longo de todo o ciclo de vida dos ativos.
Nesse contexto, plataformas colaborativas e Ambientes Comuns de Dados (CDE) tornam-se fundamentais.
Elas permitem integrar equipes, centralizar informações e conectar o escritório ao canteiro de obras em tempo real, inclusive por meio de aplicações móveis que funcionam offline.
Com isso, atividades como registro fotográfico, diário de obra e atualização de cronogramas passam a ser automatizadas e rastreáveis.
O resultado é direto: menos retrabalho, maior transparência e redução da dependência de grandes equipes operacionais em campo.
Tudo isso deve ser estruturado com base em requisitos bem definidos, alinhados a padrões internacionais como a ISO 19650, que estabelece diretrizes para a gestão da informação ao longo do ciclo de vida de um ativo construído, utilizando BIM (Building Information Modeling) como base.
É sobre essa base digital que o BIM se consolida como um verdadeiro motor de governança. Muito além de modelagem 3D ou exigência contratual, o BIM transforma dados dispersos em informação estruturada, permitindo decisões mais rápidas, precisas e auditáveis.
Para os municípios, que gerenciam ativos de alto valor e longo ciclo de vida, o verdadeiro divisor de águas é a adoção do openBIM.
Ao utilizar padrões de dados abertos como IFC (Industry Foundation Classes), BCF (BIM Collaboration Format) e IDS (Information Delivery Specification), o setor público garante que as informações das obras permaneçam acessíveis por 20 ou 50 anos, conquistando interoperabilidade e independência tecnológica frente aos grandes fabricantes de software.
No entanto, tecnologia sem capacitação não gera transformação. Para que essa mudança aconteça de forma consistente, é indispensável investir na qualificação das equipes. Certificações reconhecidas internacionalmente, como a PCERT da buildingSMART, são fundamentais para formar profissionais capazes de entender o BIM como processo e não apenas como ferramenta.
Somente com equipes preparadas e uma visão estratégica clara, o setor público conseguirá sair do ciclo de atrasos, dos desperdícios e da baixa eficiência. Além de modernizar processos, trata-se de reconstruir a engenharia pública sobre bases digitais, colaborativas e orientadas a dados.
Em um cenário de escassez de recursos e talentos, a digitalização deixa de ser uma escolha e passa a ser a única alternativa viável para garantir entregas mais rápidas, transparentes e sustentáveis para a sociedade.
*Marcus Granadeiro é engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP, sócio-diretor do Construtivo, certificado em BIM pelo RICS (Royal Institution of Chartered Surveyors) e em Transformação Digital pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology).
14 de maio 2026
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