Redação GC
11/06/2026 14h11 | Atualizada em 12/06/2026 11h42
Imagens: EngibrasPresidente da BRZ Infra, Elaine Ferreira atualmente se destaca como uma das principais lideranças femininas da construção pesada brasileira.
Em entrevista exclusiva à Revista Grandes Construções, a executiva discorre sobre os desafios e conquistas das mulheres em um ambiente ainda majoritariamente masculino
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Imagens: EngibrasPresidente da BRZ Infra, Elaine Ferreira atualmente se destaca como uma das principais lideranças femininas da construção pesada brasileira.
Em entrevista exclusiva à Revista Grandes Construções, a executiva discorre sobre os desafios e conquistas das mulheres em um ambiente ainda majoritariamente masculino, mas que ao longo dos anos vem abrindo cada vez mais espaço para a mão de obra feminina.
Engenheira civil graduada pela Faculdade de Engenharia São Paulo (Fesp), Elaine soma mais de 20 anos de experiência no setor de infraestrutura e construção pesada, com sólida trajetória em gestão de contratos públicos e privados, liderança de grandes equipes e implementação de estratégias ESG na construção.
Sua ampla formação acadêmica inclui cursos de AMP (Advanced Management Program) na ISE Business School, pós-graduação em Construção de Navios pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e MBA em Gestão de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas, instituição onde também cursou pós-graduação em Direito Empresarial.
Desde janeiro de 2021, a executiva está à frente da holding que controla a Engibras Engenharia, conduzindo “um processo de crescimento sustentável e inovação” na empresa.
Sob sua liderança, a companhia fortaleceu a posição como referência em infraestrutura. construindo – em menos de uma década de existência – uma consistente carteira de projetos em mobilidade urbana, saneamento, urbanização, energia e complexos industriais.
Atualmente, dentre outros projetos a empresa lidera o consórcio do lote 1 das obras de expansão da Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo, além de ser responsável pelo Trecho III do Ramal do Salgado, uma das obras estruturantes do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF), no Ceará.
“A presença feminina na liderança da infraestrutura não é apenas uma questão de diversidade, mas também de competitividade”, avalia.
“Equipes diversas tomam decisões melhores, ampliam perspectivas e geram soluções mais inovadoras para desafios cada vez mais complexos”, diz ela.
A seguir, acompanhe os principais trechos.
Quando comecei minha carreira, era comum entrar em reuniões, visitas técnicas ou canteiros de obras e ser a única mulher presente ou, ao menos, uma das poucas. Naquela época, o maior desafio não era dominar os aspectos técnicos da engenharia, mas conquistar credibilidade em um ambiente que historicamente não enxergava mulheres em posições de liderança. Ao longo da minha trajetória, percebi que muitas vezes era necessário demonstrar resultados antes de receber o mesmo nível de confiança que normalmente era concedido de forma automática aos homens. Isso exigiu muita consistência, preparo técnico e resiliência. Por outro lado, essa experiência também me ensinou que a melhor forma de quebrar barreiras é através de competência, entrega e construção de relações de confiança.
Vejo uma evolução importante, pois mais mulheres estão ocupando posições estratégicas na engenharia, na gestão de obras, na operação e na liderança corporativa. Ainda estamos longe de uma representatividade equilibrada, especialmente na construção pesada, mas o avanço é inegável. A presença feminina na liderança da infraestrutura não é apenas uma questão de diversidade, mas também de competitividade. Equipes diversas tomam decisões melhores, ampliam perspectivas e geram soluções mais inovadoras para desafios cada vez mais complexos. O setor ganhou maturidade ao compreender que talento, competência e capacidade de liderança não têm gênero.
Diria que romper a associação automática entre autoridade e figura masculina foi o principal aspecto. Durante décadas, os canteiros de obras têm sido ambientes predominantemente masculinos e, naturalmente, a imagem da liderança também foi construída em torno desse perfil. Quando uma mulher ocupa o topo de uma empresa de engenharia, naturalmente isso desafia o padrão estabelecido. Outro desafio que não é miuito observado – embora seja bastante comum – é o fato de as mulheres acabam por minimizar a sua essência para “caber” em espaços essencialmente masculinos. Desse modo, todos perdem, uma vez que a sensibilidade feminina contribui para um ambiente mais saudável e produtivo, por exemplo.
A execução de um projeto da magnitude da expansão da Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo demanda coordenação altamente estruturada entre engenharia, gestão e operação, especialmente em um modelo consorciado que reúne competências complementares, mas também desafios culturais. Nesse contexto, a Engibras atua com foco em uma governança robusta e clara definição de responsabilidades entre os participantes, assegurando o alinhamento entre as frentes.
O projeto envolve etapas críticas que vão desde o desenvolvimento de projetos executivos detalhados e o planejamento integrado até a execução com o uso de tecnologias avançadas, como tuneladoras (TBM), sempre considerando as particularidades de um ambiente urbano denso. Além da complexidade técnica, há desafios relevantes relacionados à logística, gestão de interferências no subsolo e mitigação de impactos à população. Por isso, a execução exige monitoramento contínuo, controle rigoroso de prazos e custos, além de gestão ativa de riscos. Em síntese, trata-se de um processo que combina excelência em engenharia, planejamento dinâmico e capacidade de articulação entre múltiplos stakeholders, com foco na entrega de infraestrutura essencial para a mobilidade urbana com qualidade, segurança e previsibilidade.
Projetos da magnitude da expansão da Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo demandam coordenação altamente estruturada entre engenharia, gestão e operação, diz a executiva
A execução de grandes obras de mobilidade urbana propicia uma série de aprendizados relevantes do ponto de vista técnico, gerencial e institucional. Um dos principais pontos é a centralidade da gestão de interfaces. Projetos dessa natureza envolvem múltiplos subcontratados, disciplinas de engenharia e frentes simultâneas de trabalho, o que torna essencial a existência de mecanismos estruturados de coordenação e integração para garantir consistência técnica, cumprimento de prazos e controle de custos. Outro aprendizado importante está relacionado à complexidade do ambiente urbano e do subsolo. A presença de interferências não mapeadas e variáveis geotécnicas exige um nível elevado de planejamento, com investigações detalhadas e estratégias de mitigação capazes de reduzir incertezas ao longo da execução. Destaca-se a necessidade de um planejamento dinâmico, com capacidade de adaptação contínua.
Em projetos dessa escala, o cronograma também deve ser tratado como um instrumento vivo, sujeito a revisões permanentes em função de condicionantes técnicas, operacionais e externas. Além disso, reforça-se a importância da comunicação transparente com stakeholders, especialmente em contextos urbanos densos, onde as obras impactam diretamente a rotina da população. Uma gestão eficaz da relação com o entorno contribui para a mitigação de riscos reputacionais e operacionais. Por fim, projetos como esses demonstram a relevância de uma governança contratual sólida e de uma atuação colaborativa entre os integrantes do consórcio, fatores fundamentais para lidar com sua complexidade inerente e assegurar a entrega de infraestrutura estratégica com qualidade, segurança e eficiência.
Obras subterrâneas, como as do Metrô de São Paulo, tornaram-se muito mais rápidas, seguras e precisas em comparação às executadas décadas atrás, graças ao avanço da mecanização, das tecnologias construtivas e dos sistemas de monitoramento e controle operacional. Um dos principais avanços é o uso das tuneladoras (popularmente conhecidas como “tatuzões”), máquinas capazes de escavar túneis com maior rapidez, precisão e segurança, além de reduzir significativamente os impactos no ambiente urbano quando comparadas a métodos tradicionais, como trincheiras e escavações em NATM.
Segundo Elaine Ferreira, o uso das tuneladoras vem permitindo escavar túneis com maior rapidez, precisão e segurança, além de reduzir significativamente os impactos no ambiente urbano
Sem dúvida, tecnologias como sensores, modelagem 3D, BIM, drones e monitoramento em tempo real proporcionam maior controle executivo, maior eficiência operacional e elevados padrões de segurança durante todas as etapas da obra. No entanto, a tecnologia, por si só, não é suficiente. A experiência dos engenheiros, desde o projeto até sua execução, continua sendo fundamental. Por mais detalhado e bem-elaborado que seja o projeto executivo, é durante a fase de execução que surgem os desafios reais e os diferentes comportamentos das escavações. Avaliar e interpretar as condições do solo, tomar decisões rápidas diante de situações imprevistas, retroalimentar continuamente o projeto e adequar os métodos construtivos às características específicas de cada trecho da obra fazem parte da rotina das equipes de engenharia em obras subterrâneas. Em projetos de alta complexidade, a integração entre conhecimento técnico, experiência prática e inovação tecnológica é o que garante eficiência, segurança e cumprimento de prazos.
Vemos a tecnologia como uma ferramenta estratégica para mitigar riscos e enfrentar desafios que tendem a se intensificar nos próximos anos, especialmente a escassez de mão de obra e a necessidade de ganhos de produtividade. Já utilizamos equipamentos com tecnologia embarcada 2D e 3D, além de soluções como drones, nuvem de pontos, BIM, realidade aumentada e realidade virtual. Também acompanhamos a evolução para sistemas mais avançados de automação e controle, que já começam a transformar os canteiros em diferentes partes do mundo. A Inteligência Artificial também passa a fazer parte dessa realidade, contribuindo para a otimização de processos, análise de dados e aumento da eficiência operacional. No entanto, mais do que adotar tecnologia por tendência, nosso objetivo é avaliar continuamente o custo-benefício de cada solução e identificar as que efetivamente agregam valor em produtividade, segurança, qualidade e previsibilidade das obras.
A escassez de mão de obra qualificada é, sem dúvida, um dos principais desafios da infraestrutura atualmente e tende a se intensificar nos próximos anos em função do envelhecimento da força de trabalho. O desafio não está apenas em encontrar profissionais, mas em tornar o setor mais atrativo para as novas gerações. Estamos vivendo uma transformação importante na engenharia. A digitalização, a mecanização e o uso crescente de tecnologias como automação, inteligência artificial e monitoramento digital estão mudando o perfil dos profissionais que o setor demanda. A obra do futuro será cada vez mais tecnológica, o que abre uma oportunidade enorme para atrair jovens talentos. Por isso, investimos fortemente em capacitação técnica, treinamento contínuo e desenvolvimento interno.
Para a engenheira, desafio não está apenas em encontrar profissionais, mas também em tornar o setor mais atrativo para as novas gerações
Buscamos identificar profissionais com potencial e criar trilhas de crescimento que permitam sua evolução dentro da empresa, tanto nas áreas operacionais quanto nas posições de liderança. Na Engibras, entendemos que não podemos apenas disputar os profissionais disponíveis no mercado, mas precisamos formar talentos. Para isso, temos ampliado nossa aproximação com escolas técnicas, universidades e programas de formação profissional, fortalecendo a conexão entre o ambiente acadêmico e a realidade dos canteiros de obras. No longo prazo, a solução passa por uma combinação de investimento em pessoas, modernização dos processos construtivos e ampliação da diversidade. Quanto mais conseguirmos atrair jovens, mulheres e novos perfis profissionais para a infraestrutura, maior será nossa capacidade de sustentar o crescimento do setor.
Assim como já acontece lá fora, a engenharia brasileira precisa passar por uma modernização e industrialização em seus processos produtivos para se conectar com desejos e aspirações das novas gerações. Os jovens precisam sentir que a engenharia é um setor de inovação e grandes desafios. Precisamos aproximar os estudantes dos canteiros de obras e quebrar o estereótipo de que o canteiro é um ambiente exclusivamente masculino. A atração de mulheres para a engenharia, especificamente, passa por oferecer melhores condições de trabalho, como vestiários femininos, uniformes e EPIs adequados para a realidade feminina (tamanho, corte etc.). Além disso, requer tolerância zero em relação a assédios e discriminações, tanto por meio da conscientização dos homens, capacitação das lideranças e escuta ativa como através de canais de denúncia eficazes e programas contínuos de compliance.
Atrair talentos para a infraestrutura tem sido um desafio complexo, especialmente nos grandes centros urbanos. Quando o recorte é a mão de obra feminina, as barreiras são ainda mais acentuadas, alimentadas pelo desconhecimento das oportunidades de carreira e por uma desconfiança natural em relação ao ambiente de trabalho historicamente masculino desse setor. Para mitigar esses pontos e transformar essa realidade na base operacional, intensificamos a aproximação com instituições de apoio, empregabilidade e recolocação dentro das próprias comunidades onde nossas obras estão inseridas. Além disso, capacitamos parceiros para que possam traduzir a realidade dos canteiros de forma clara, segura e acolhedora desde o primeiro contato no recrutamento.
Desde o início da contratação, as profissionais são integradas aos canteiros de obras e recebem capacitação técnica direcionada, respeitando e impulsionando suas habilidades e preferências de atuação. Como o tema vai além do ambiente técnico, também oferecemos o Programa de Apoio Pessoal, que garante suporte psicossocial e retaguarda necessária para que essas mulheres se sintam seguras, valorizadas e motivadas a construir uma trajetória de longo prazo conosco. Outro aspecto importante a ser trabalhado é o preparo do ambiente para receber essas profissionais. Isso abrange desde o treinamento com a equipe para garantir o respeito à diversidade até a adaptação das instalações para tornar o ambiente adequando, como banheiros, vestiários e áreas de vivência.
Na Engibras, as profissionais recebem capacitação técnica direcionada, respeitando e impulsionando suas habilidades e preferências de atuação, assegura a presidente da empresa
Vejo os próximos anos com bastante otimismo. Investimentos que viabilizem o escoamento da produção, saneamento básico para todos, energia para garantir o crescimento do parque industrial e mobilidade urbana eficaz e abrangente, entre outras demandas, não só são necessários como urgentes – e, de forma inédita, governo e iniciativa privada parecem atentos a essa realidade. Embora ainda lentamente, o país vem evoluindo nos processos de regulação e de desenvolvimento de projetos estruturados e na participação mais intensa da iniciativa privada por meio de concessões e PPPs, por exemplo, viabilizando projetos que, de outra forma, levariam muito mais tempo para sair do papel. Além disso, é imprescindível que políticas públicas prevaleçam sobre políticas de governo, evitando descontinuidade ou falta de integração nas ações.
Ainda temos desafios importantes a vencer. De um lado, há a necessidade de garantir segurança jurídica, financiabilidade e continuidade para os projetos e, de outro, a necessidade de modernização dos canteiros e de aumento da produtividade. Mas caminhamos a passos largos para transformar o modo como projetamos e construímos. Atualmente, a engenharia pesada deixou de ser apenas uma atividade de execução e passou a desempenhar um papel estratégico na construção de um país mais resiliente e na geração de desenvolvimento econômico. Mais do que construir obras, estamos ajudando a construir as condições para que o país cresça de forma sustentável, aumente sua competitividade e gere oportunidades para as próximas gerações. ♦
11 de junho 2026
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