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Exame de Angola
11/11/2011 13h25 | Atualizada em 11/11/2011 18h47
Nos primórdios da Revolução Russa, o líder bolchevique Nicolau Bukharin fez uma exortação à sociedade: “Enriqueçam!” O que se seguiu foi o oposto — e o próprio Bukharin acabaria por ser executado como “traidor ao serviço do capitalismo” num dos polémicos julgamentos dos anos 30 promovidos por Estaline. Há pouco mais de 30 anos, o então primeiro-ministro chinês Deng Xiaoping repetiu a máxima de Bukharin e apelou aos chineses para enriquecerem. “Estamos cansados de ser pobres”, afirmou. As consequências das palavras de Deng estão à vista, expressas no monumental crescimento que levou a China à posição de segunda maior economia do mundo. Deng não se limitou à oratória. Permitiu u


Nos primórdios da Revolução Russa, o líder bolchevique Nicolau Bukharin fez uma exortação à sociedade: “Enriqueçam!” O que se seguiu foi o oposto — e o próprio Bukharin acabaria por ser executado como “traidor ao serviço do capitalismo” num dos polémicos julgamentos dos anos 30 promovidos por Estaline. Há pouco mais de 30 anos, o então primeiro-ministro chinês Deng Xiaoping repetiu a máxima de Bukharin e apelou aos chineses para enriquecerem. “Estamos cansados de ser pobres”, afirmou. As consequências das palavras de Deng estão à vista, expressas no monumental crescimento que levou a China à posição de segunda maior economia do mundo. Deng não se limitou à oratória. Permitiu uma heresia dentro da ortodoxia comunista de Mao Tsé-tung — que os negócios deixassem de ser monopólio estatal. E o empreendedorismo floresceu.
Liang Wengen, por exemplo, era um jovem com apenas 20 anos quando Deng colocou a China no caminho da livre iniciativa individual. Depois de se formar na universidade, ele trabalhou alguns anos numa empresa estatal de armas. No final da década de 80, fundou o seu próprio negócio, juntamente com alguns amigos.
No mês passado, um levantamento feito pela respeitada revista de negócios chinesa Hurun colocou Liang, hoje com 53 anos, na posição de número 1 na lista de milionários chineses. Casado, pai de um filho, como tantos chineses da sua geração, Liang — na China os apelidos antecedem o nome próprio — tem uma fortuna avaliada em 11 mil milhões de dólares.
Um grupo dedicado à construção
Liang é o presidente e o accionista maioritário do grupo Sany, fabricante de equipamentos de construção. O lema da empresa mostra o seu empenho em criar uma marca que supere a imagem negativa, associada durante décadas, aos produtos chineses: “A qualidade muda o mundo.” No seu site, a Sany anuncia que investe entre 5% e 7% das suas receitas em investigação e desenvolvimento. A empresa beneficiou do extraordinário investimento feito pela China em infra-estruturas. A Sany, nascida como uma pequena companhia de material para soldadura, é hoje uma multinacional. Está presente em 120 países, emprega 70 mil empregados e tem cinco parques industriais na China a somar às fabricas e centros de investigação nos Estados Unidos, Alemanha, Índia e Brasil. Recorde-se que a lista de milionários da revista Forbes também é liderada por Liang, embora com uma fortuna inferior (9,1 mil milhões de dólares) e a 54.ª posição à escala mundial.
Não é fácil criar uma lista de milionários chineses — eles preferem o anonimato à exposição pública
Uma das explicações para a diferença é que não é fácil criar uma lista de milionários na China. Muitos “novos milionários” tentam esconder o património pois receiam que o Partido Comunista decida retroceder no liberalismo económico que transformou a China num exótico e extraordinariamente bem-sucedido — caso de socialismo capitalista. Um regresso ao passado é muito improvável, mas isso não afasta os receios. O homem que liderou a lista da Hurun em 2004 e 2005, Huang Guangyu, magnata do sector electrónico, cumpre hoje pena de 14 anos na prisão, acusado de suborno. Outros “novo ricos” tiveram o mesmo destino de Huang.
Enriquecer, sim, mas não de forma ilícita: tem sido a mensagem do governo chinês. A vigilância sobre o que se passa no mundo dos negócios é intenso. Recentemente, num caso que despertou polémica internacional, o principal executivo em Xangai do colosso anglo-australiano dos minérios Rio Tinto foi detido pela polícia, também sob acusação de suborno. A Austrália protestou oficialmente e criou-se uma tensão diplomática só minorada quando apareceram evidências da culpa do funcionário da Rio Tinto. A multinacional acabou por reconhecer publicamente que ocorreram, de facto, actos de corrupção na sua subsidiária de Xangai.
A lista elaborada pela revista Hurun é, ela própria, um dos casos interessantes de aproveitamento de oportunidades na nova China. Por trás dela está o britânico Rupert Hoogewerf, ex-auditor da Arthur Andersen em Xangai. Hoogewerf deixou o seu emprego para empreender. Aos 41 anos, ele é conhecido na China como Hu Run — daí o nome da publicação. Hoogewerf acabou por se tornar um especialista em riqueza individual na China. O respeito generalizado ficou expresso na homenagem que o governo de Xangai lhe prestou em 2009. Ele recebeu o Prémio Magnólia, assim chamado por se tratar da flor oficial da cidade. É a mais alta distinção oficial dada a estrangeiros em Xangai.
“Os chineses milionários estão cada vez mais sofisticados”, diz à EXAME. “Eles estão a enviar os filhos para o exterior, principalmente para os Estados Unidos e Inglaterra. Quanto mais jovens são, mais cedo rumam ao estrangeiro.” A China, de acordo com o levantamento da revista Hurun, tem 960 milionários (fortunas acima de 1 milhão de dólares) dos quais 271 têm uma riqueza superior a 1000 milhões de dólares. A idade média é 43 anos. O seu número duplicou em apenas um ano. Isso faz da China o segundo país em número de milionários, segundo a listagem anual da revista Forbes. À sua frente estão os Estados Unidos, com mais de 400 super-ricos.
Há 960 milionários com fortunas acima de 1 milhão de dólares. O número duplicou em apenas um ano
Os chineses ricos estão também a consumir um pouco mais (para gáudio do resto do mundo). “A China é hoje, para as marcas de luxo, ou o maior mercado do mundo ou aquele que mais cresce”, diz Hoogewerf. Marcas de luxo como a Cartier, Patek Philippe, Louis Vuitton, Bentley, Rolls-Royce, Royal Salute e Davidoff estão entre as campeãs de vendas na plutocracia chinesa. É raríssima, na elite, a preferência por marcas locais. Uma das poucas excepções são os voos de primeira classe da Air China.
Sobre o primeiro da lista dos milionários pouco se sabe (a facturação do grupo também não está disponível no site). Liang Wengen raramente concede entrevistas. Jornalistas chineses e estrangeiros têm tentado, sem sucesso, falar com ele depois da revista Hurun ter publicado o seu estudo.
“Quero que a Sany seja conhecida em todo mundo, não eu”, disse ele ao fundador da Hurun. Ainda assim circulam várias histórias a seu respeito na imprensa internacional. Diz-se, por exemplo, que o seu pai não gostou nada quando Liang deixou a empresa estatal para criar um negócio próprio. Era, na visão paterna, como abandonar uma “tigela de ferro de arroz”.
Cresce o espírito consumista na China
Liang tinha um plano B para o caso do seu negócio fracassar: escrever um livro intitulado Assim Não Funciona, um alerta para os jovens que tomam atitudes “impulsivas” (como a dele). Também tinha decidido que, em caso do naufrágio das suas pretensões empresariais, se recolheria nalgum lugar remoto da China para ensinar os mais pobres. Nisso — educar os jovens— ele foi absolutamente fiel a Confúcio, filósofo nascido há 2500 anos e que ainda hoje molda o espírito dos chineses. Mas renegou ao mesmo tempo o confucionismo ao não obedecer ao pai, como pregava tão incisivamente o mestre Confúcio. Essa contradição como que resume a alma chinesa nestes novos tempos em que a tradição convive com a renovação.
E terão os milionários chineses um comportamento parecido com o de muitos dos seus homólogos ocidentais na questão de impostos? Nos Estados Unidos, Warren Buffett disse que chegou a hora de Washington parar de mimar os ricos, e notou que os seus assalariados pagam proporcionalmente mais impostos do que ele. Em França, a milionária Liliane Bettencourt, dona da L’Oréal, defendeu publicamente que o governo taxe mais os donos de fortunas como ela. Na Alemanha, há manifestações públicas semelhantes. E na China, deve-se esperar um movimento parecido? Provavelmente não. Ou, pelo menos, não tão cedo. Há tempo para tudo e o momento, para os chineses que obedeceram à formidável recomendação de Deng Xiaoping para enriquecer, é muito mais para consumir e desfrutar das coisas boas da vida que foram sonegadas por tanto tempo ao país sob o comando de Mao Tsé-tung — do que para ser generoso com o Estado. Confúcio decerto não concordaria.
Liang Wengen, fundador do grupo Sany
Idade: 53 anos
Fortuna: 11 mil milhões de dólares (54.º mais rico do mundo — Forbes).
Estado civil: Casado, um filho
Formação: Licenciado em Engenharia, pela Universidade do Centro-Sul da China
Carreira: Foi um dos fundadores, em 1989, de uma pequena fábrica de material para soldadura na província de Hunan que deu origem ao grupo Sany. Hoje, é presidente e o principal accionista do grupo que está entre os maiores produtores de equipamentos para construção da China. Emprega 70 mil pessoas, está presente em 120 paises e é a 431.ª maior empresa do mundo, segundo o Financial Times.
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