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Brasil e China entre tapas e beijos

Após euforia inicial com os asiáticos, País busca consolidar uma relação mais madura com seu maior parceiro comercial

iG

13/07/2011 11h32 | Atualizada em 13/07/2011 14h54


Mesmo com vários acordos firmados entre o Brasil e a China durante a recente visita da presidenta Dilma Rousseff ao país asiático em abril, recordes em vendas de produtos, principalmente commodities, e os esforços para reafirmar a importância da parceria comercial entre as duas nações emergentes, o governo brasileiro tem procurado demonstrar uma maior maturidade se posicionando de forma mais crítica sobre as decisões tomadas por Pequim.

Na avaliação de especialistas, essa mudança ainda é um processo em construção, mas um sinal de que depois de um longo período de encantamento, um olhar mais crítico com relação à China começa a vir à tona, transparecendo o desconforto com a desvalorização da moeda chinesa, o yuan, em relação ao dó

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Mesmo com vários acordos firmados entre o Brasil e a China durante a recente visita da presidenta Dilma Rousseff ao país asiático em abril, recordes em vendas de produtos, principalmente commodities, e os esforços para reafirmar a importância da parceria comercial entre as duas nações emergentes, o governo brasileiro tem procurado demonstrar uma maior maturidade se posicionando de forma mais crítica sobre as decisões tomadas por Pequim.

Na avaliação de especialistas, essa mudança ainda é um processo em construção, mas um sinal de que depois de um longo período de encantamento, um olhar mais crítico com relação à China começa a vir à tona, transparecendo o desconforto com a desvalorização da moeda chinesa, o yuan, em relação ao dólar e suas conseqüências como desequilíbrios comerciais, a atuação de companhias chinesas no exterior e empresas brasileiras na China e a busca por firmar-se como um concorrente de produtos chineses no mercado internacional.

Para Creomar Lima de Carvalho Souza, professor de Relações Internacionais no Ibmec Brasília e especialista em economia internacional, desde o início de 2003 o Brasil tinha uma crença de que a China seria o parceiro ideal para um crescimento acelerado, uma vez que o país possui um grande mercado de consumo, que interessa às indústrias brasileiras, e recursos para viabilizar investimentos em produção e infraestrutura.

“A China tornou-se nosso principal parceiro comercial, mas não conseguimos vender a produção brasileira de maior valor agregado lá. As dificuldades são imensas, a começar pelo câmbio.”, diz Souza. “Nossa pauta de exportação é muito concentrada em produtos básicos e importamos bens acabados, o que tem levado a uma recomposição do parque produtivo em alguns setores, como o de máquinas e equipamentos, por exemplo”, acrescenta o professor.

Lima destaca que já no segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a ser moldado um novo discurso, mais enfático e mais claro, abordando as questões que mais incomodam o Brasil nas relações bilaterais.

Embraer
Em abril o presidente da Embraer, Frederico Curado, anunciou um acordo para a permanência da fábrica da Embraer em Harbin, na China para que sejam produzidos jatos executivos Legacy. O risco de fechamento da fábrica era um dos pontos mais polêmicos da relação entre os dois países nos últimos meses.

A Embraer é parceira da estatal Aviation Industries of China (Avic) desde 2002 e produziu em abril a última unidade do modelo para o qual tem licença de fabricação, o ERJ-145, uma aeronave comercial de 50 lugares cuja demanda na China e no mundo despencou nos últimos anos. Sem licença para fabricar outro modelo, mais competitivo, a fábrica corria o risco de ficar ociosa e fechar as portas.

Conselho de segurança da ONU
Além da questão comercial, avaliam os especialistas, a mudança de postura ocorreu porque o Brasil passou a se sentir prejudicado com a falta de apoio mais explícito ao pleito por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) em troca do reconhecimento explícito de que a China é uma economia de mercado, apesar da forte presença e intervenção estatal em todos os segmentos.

Essa antiga pretensão chinesa dificultaria a imposição pelo Brasil de medidas contra os produtos chineses quando os bens importados são vendidos por um valor abaixo do preço de custo ou do valor praticado nos mercados de origem.

“A China continua sendo um parceiro que não se pode desprezar. Mas os termos de negociação são os mesmos com todos e os governantes levam em conta as enormes demandas sociais da população”, diz o professor Souza, do Ibmec. “Portanto, é necessário que do lado brasileiro exista uma estratégia sólida de negociação. Sem isso, dá-se espaço para que a China imponha suas prioridades”, analisa.

Para Luís Paulino, professor de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e diretor do Instituto Confúcio, órgão ligado ao governo chinês e que divulga a cultura e a língua do país em diversas regiões do mundo, o Brasil tem tido uma postura positiva com a China e deve agir para minimizar possíveis divergências entre as nações. “A China nunca disse que não apoiaria a entrada do Brasil no Conselho de Segurança, mas não concorda com o pleito porque ele foi feito junto com o Japão, que tem uma rivalidade histórica com os chineses”, disse Paulino. “Isso criou dificuldades para as pretensões brasileiras”, argumenta.

Interesse nacional
Para Souza, do Ibmec, ainda há espaço para mudança de postura do lado brasileiro tendo em vista que a China ainda não é um país rico, mas em rápido crescimento. “O Brasil deve aproveitar esse momento para assumir posições mais claras em defesa dos interesses do País”, diz. “A China tem enormes carências no setor de alimentos, mas se acreditasse que os produtos agrícolas são o futuro não estariam construindo o maior parque produtivo do mundo.”

Na avaliação de Paulino, da Unesp, o Brasil tem tido uma postura positiva com a China e deve agir para minimizar possíveis divergências nas relações comerciais entre as nações. “A concorrência de produtos chineses tem provocado certo desconforto em alguns setores da indústria, mas não é uma posição generalizada”, diz. “Nas relações entre os dois países existem interesses dos dois lados que justificam uma relação mais sólida. As commodities interessam à China e os investimentos chineses ao Brasil. No fundo, o Brasil ainda está aprendendo a fazer negócios com a China”, afirma Paulino.

 

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