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A metamorfose dos estádios

A exemplo dos projetos de Grêmio e Internacional, velhos campos dão lugar a supermercados, condomínios e shoppings mundo afora

iG São Paulo

22/09/2010 14h44 | Atualizada em 22/09/2010 20h47


 

“E pensar que bem daqui meti um gol de bate-pronto no Roma, naquela partida contra o Boca”, rememorou o artilheiro argentino José Sanfilippo em conversa com o escritor compatriota Osvaldo Soriano. O diálogo foi real. Verídico foi também o gol relembrado por Sanfilippo. O inusitado foi o local de onde o ex-jogador disse ter batido na bola na tal partida contra o Boca Juniors: “caminhamos entre as prateleiras”, relatou Soriano, “rodeados de caçarolas, queijos e résteas de linguiça (...), diante de uma gorda que arrasta um carrinho cheio de latas, bifes e verduras”.

Soriano e Sanfilippo conversavam em uma loja do Carrefour em Buenos Aires em algum momento da década de 1990. A conversa era também um réquiem para o Velho Gas

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“E pensar que bem daqui meti um gol de bate-pronto no Roma, naquela partida contra o Boca”, rememorou o artilheiro argentino José Sanfilippo em conversa com o escritor compatriota Osvaldo Soriano. O diálogo foi real. Verídico foi também o gol relembrado por Sanfilippo. O inusitado foi o local de onde o ex-jogador disse ter batido na bola na tal partida contra o Boca Juniors: “caminhamos entre as prateleiras”, relatou Soriano, “rodeados de caçarolas, queijos e résteas de linguiça (...), diante de uma gorda que arrasta um carrinho cheio de latas, bifes e verduras”.

Soriano e Sanfilippo conversavam em uma loja do Carrefour em Buenos Aires em algum momento da década de 1990. A conversa era também um réquiem para o Velho Gasômetro, estádio do San Lorenzo, clube de Buenos Aires que mandou seus jogos no local até 1979. O estádio foi demolido em 1983 e deu lugar a uma loja da rede de origem francesa. Soriano, falecido em 1997, enviou o relato da conversa com Sanfilippo, seu ídolo de infância (artilheiro quatro vezes consecutivas do campeonato argentino entre 1958 e 1961 e que, no Brasil defendeu Bangu e Bahia), ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, que o reproduziu no livro Futebol ao Sol e à Sombra.

Sepultam-se as velhas praças esportivas, ficam relatos como os de Soriano. Foi no Estádio dos Eucaliptos, desativado há muito pelo Internacional (e que só agora foi vendido para bancar parte das obras de reformas do Beira-Rio), que, na década de 1940, desfilou o Rolo Compressor, verdadeiro grande time do centenário clube de Porto Alegre, segundo os torcedores que o viram jogar. “Que o Inter era o maior do mundo eu sabia desde 1946. Só faltava provar”, dizia a nada parcial crônica do colorado Luis Fernando Veríssimo, publicada pelo jornal “Zero Hora” em 4 de abril de 2009, quando o clube completou 100 anos de vida.

Em Florianópolis, o Avaí ganhou seu atual estádio, a Ressacada, quando aceitou ceder o velho Adolfo Konder ao Kobrasol, um grupo empresarial local. Inaugurado em 1930 e, por força de lei, doado ao clube em 1973, o antigo estádio, conhecido como Pasto do Bode e Campo da Liga, deu lugar ao Beiramar Shopping, um dos principais da cidade.

No interior do País, de estádio a supermercado
A Copa do Mundo de 2014 deu gás adicional à construção de novos estádios, mas os projetos não se limitam a grandes cidades ou a capitais que receberão jogos da competição. Como fez o argentino San Lorenzo, o Mamoré, de Patos de Minas, vendeu o estádio Waldomiro Pereira a uma rede de supermercados – o negócio foi fechado com a rede mineira Bretas – para reestruturar suas finanças. Com o dinheiro, o pequeno clube, que em 2011 voltará a figurar na primeira divisão do Campeonato Mineiro, ergueu o estádio Bernardo Rubinger de Queiroz.

Também em Minas Gerais, o Nacional de Muriaé valeu-se do mesmo expediente. Com o dinheiro da venda do estádio Soares de Azevedo, o Brasão, está erguendo sua nova casa, que terá capacidade para 15 mil pessoas e deve ser concluída em 2011. O Nacional jamais foi campeão mineiro, mas teve em suas fileiras o brilho de um vice-presidente da República: José Alencar, vice do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atuou nas divisões de base do Nacional e sempre se declara torcedor do clube. “Nacional eu sou do coração, Nacional até debaixo d’água, quem fala mal do clube campeão, ou é de inveja, ou é de mágoa”, cantou Alencar o hino do Nacional aos médicos em julho de 2009, em uma de suas internações para o combate de um câncer, segundo relatou na época o jornal “O Estado de S. Paulo”.

O Sarrià, palco da eliminação da incensada seleção brasileira na Copa de 1982, virou uma praça em Barcelona. O Espanyol, dono do estádio, inaugurou em 2009 o estádio Cornellà-El Prat. A nova praça esportiva tem um fetiche adicional para os devotos: o local deve abrigar um cemitério com capacidade para até 20 mil pessoas. Torcedores que querem ter moradia eterna na nova casa terão que desembolsar quatro mil euros (ou R$ 9 mil).

Em Londres, o Highbury, como era conhecido o estádio do Arsenal (batizado oficialmente de Arsenal Stadium), foi transmutado em condomínio residencial. Não será moradia eterna, como a oferecida pelo novo estádio do Espanyol, mas atraiu levas de torcedores do clube, interessados em morar onde antes desfilavam seus ídolos. Entre os compradores de primeira hora estava o escritor Nick Hornby, autor de Alta Fidelidade e de Febre de Bola – este, de cunho autobiográfico, sobre a relação dele com o próprio time do coração.

Agora, todos viram arena
Novos estádios podem não ter o charme ou as rugas da história envergadas pelas velhas praças esportivas, mas movimentam o mercado da construção civil, geram empregos e, em muitos casos, melhoram o conforto para os espectadores. Talvez um efeito colateral seja a padronização dos nomes de batismo: agora, todos são arena. Reformado, o Estádio de Pituaçu, que fica dentro de um parque homônimo em Salvador, virou Arena Pituaçu. Em fase de ampliação, o Estádio Índio Condá, de Chapecó (SC), que faz referência às tribos que habituavam o oeste do Estado, já tem sido chamado de Arena Condá. Em Rio Branco, o Acre se lançou à disputa por jogos da Copa de 2014 com a Arena da Floresta. Em São Paulo, o Palestra Itália, também chamado de Parque Antarctica, vai se transformar na Arena Palestra. Dos novos projetos, poucos nascem com nomes ou apelidos únicos como Baixada Melancólica (Inter de Santa Maria, RS), Parque do Sabiá (Uberlândia, MG) ou Moça Bonita (do Bangu, no Rio de Janeiro).

O Velho Gasômetro, sepultado em Buenos Aires sob uma loja do Carrefour, não se transformou na Arena Gasômetro, mas no Novo Gasômetro. No entanto, foi no velho – ou na loja que o substituiu – que um gol se refez. “De repente, Sanfilippo me mostra a pilha de vidros de maionese e grita: ‘ele colocou a bola bem aqui!’”, relatou o escritor Osvaldo Soriano. “Deixei-a quicar, e plum!”, disse o ex-artilheiro. “Parece a todos nós que a bola entra por cima, justamente onde estão as pilhas para rádio e as lâminas de barbear”, descreveu Soriano. “Sanfilippo levanta os braços para festejar. Os fregueses e as caixas quase arrebentam as mãos de tanto aplaudir. Sanfilippo tinha feito de novo aquele gol de 1962, só para que eu pudesse vê-lo”.

 

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