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26 de fevereiro de 2014
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Geologia - Matéria de Capa

Opinião: As chuvas e o medo chegaram

Por Álvaro Rodrigues dos Santos

Como já o mais simples calendário de papelaria alertava, adentramos no sul-sudeste brasileiro o período chuvoso crítico que anualmente tem marcado a região por terríveis tragédias associadas a enchentes e deslizamentos. Tragédias em que milhares de brasileiros perdem suas vidas de forma estúpida e brutal, e a sociedade paga altíssimo preço, com prejuízos de toda a sorte acumulados. Nesse ano, o interior baiano, a cidade do Rio de Janeiro e municípios da Baixada Fluminense, com mortos e milhares de desabrigados, abrem o já comum lúgubre espetáculo.

Cabe perguntar: estamos hoje melhor preparados para enfrentar esses graves fenômenos? Em que pese o maior envolvimento de instituições e órgãos públicos com o problema, poder-se-ia dizer que muito pouco. Prevalece ainda a visão curta e irresponsável que tem levado as administrações públicas a tratar a questão sob uma ótica corretiva e emergencial. Nela se busca atenuar as consequências dos conhecidos erros que vem sendo cometidos pelo crescimento urbano, ao invés de, corajosamente, focando as causas, enfrentá-los e eliminá-los dentro de uma ótica preventiva.

Tal visão distorcida, na prática, lança toda a carga de responsabilidades sobre nosso já sobrecarregado sistema de Defesa Civil, missão humanamente impossível de ser atendida, em que pese o heroísmo dessa brava gente.

Nossas cidades continuam a crescer, sob os olhos e complacência da administração pública em seus diversos níveis, praticando os mesmíssimos erros e incongruências técnicas de planejamento urbano e uso do solo que as conduziram a esse grau de calamidade pública. No caso das enchentes, impermeabilizando o solo, promovendo uma excessiva canalização de rios e córregos, expondo por terraplenagem o solo à erosão, com decorrente assoreamento dos cursos d'água; no caso dos deslizamentos e solapamentos de margens, ou ocupando encostas e fundos de vale que jamais poderiam ser ocupados dada sua já alta instabilidade natural. Ou, com resultados semelhantes, ocupando da maneira mais inadequada e desastrosa terrenos até potencialmente urbanizáveis, se utilizadas as técnicas adequadas para tanto.

Em torno e em função desse cabedal de erros cometidos, obviamente se organizaram e se estabeleceram grandes interesses empresariais, econômicos e políticos, dos quais parece que a maior parte de nossas autoridades está refém. Por incompetência, covardia política, ou por interessada passividade.