FECHAR
FECHAR
16 de maio de 2013
Voltar
Entrevista

Está em jogo o modelo privado de gestão urbana

Entrevista com Ricardo Bueno, diretor de Obras da Concessionária Porto Novo

Um empreendimento do vulto do Projeto Porto Maravilha envolve desafios e soluções igualmente grandiosos. São necessários profundo conhecimento técnico, equipamentos de primeira linha, logística sofisticada e muito planejamento. Não se pode desprezar, no entanto, disposição em ouvir a comunidade diretamente afetada pelas obras, no sentido de mitigar os grandes impactos provocados na rotina da cidade. Tudo isso está sendo medido e pesado durante as intervenções que vão desde a mudança no modelo do recolhimento do lixo até a demolição de um grande elevado, reconhecido durante anos como elemento fundamental da estrutura viária da região.

Ricardo Bueno, diretor de Obras da Concessionária Porto Novo fala dessas questões com a segurança de quem se sente respaldado por ações cuidadosas e precisas, adotadas por um grupo de empresas que assumiram o risco de mudar paradigmas de gestão do espaço urbano. Ele fala da engenharia financeira que permitiu tirar o projeto do papel, dos primeiros resultados já perceptíveis com a mudança do modelo de operação urbana na região, das soluções técnicas adotadas para enfrentar os desafios da obra, e da concepção do novo sistema viário e de transporte, que tem como objetivo final permitir o desenvolvimento sustentável da região. “Trata-se de uma experiência nova, pioneira, que poderá mudar os paradigmas que conhecemos para a gestão do espaço urbano no Brasil”, assegura Bueno.

Grandes Construções – Como foi montada a engenharia financeira para captar os recursos e viabilizar os investimentos necessários ao Projeto Porto Maravilha?

Ricardo Bueno –

Foi através da emissão de títulos públicos, de forma similar à realizada em São Paulo na operação Água Espraiada e Faria Lima. Foram emitidos os Certificados de Potencial Adicional de Construção – CEPACs, títulos de potencial construtivo, que foram levados a leilão e adquiridos em sua totalidade pela Caixa Econômica Federal. (N.R.: os CEPACs são títulos mobiliários emitidos pela prefeitura, utilizados como meio de pagamento de contrapartida para a outorga de Direito Urbanístico Adicional, dentro do perímetro de uma Operação Urbana Consorciada. Cada CEPAC equivale a determinado valor de m² para utilização em área adicional de construção ou em modificação de usos e parâmetros de

Entrevista com Ricardo Bueno, diretor de Obras da Concessionária Porto Novo

Um empreendimento do vulto do Projeto Porto Maravilha envolve desafios e soluções igualmente grandiosos. São necessários profundo conhecimento técnico, equipamentos de primeira linha, logística sofisticada e muito planejamento. Não se pode desprezar, no entanto, disposição em ouvir a comunidade diretamente afetada pelas obras, no sentido de mitigar os grandes impactos provocados na rotina da cidade. Tudo isso está sendo medido e pesado durante as intervenções que vão desde a mudança no modelo do recolhimento do lixo até a demolição de um grande elevado, reconhecido durante anos como elemento fundamental da estrutura viária da região.

Ricardo Bueno, diretor de Obras da Concessionária Porto Novo fala dessas questões com a segurança de quem se sente respaldado por ações cuidadosas e precisas, adotadas por um grupo de empresas que assumiram o risco de mudar paradigmas de gestão do espaço urbano. Ele fala da engenharia financeira que permitiu tirar o projeto do papel, dos primeiros resultados já perceptíveis com a mudança do modelo de operação urbana na região, das soluções técnicas adotadas para enfrentar os desafios da obra, e da concepção do novo sistema viário e de transporte, que tem como objetivo final permitir o desenvolvimento sustentável da região. “Trata-se de uma experiência nova, pioneira, que poderá mudar os paradigmas que conhecemos para a gestão do espaço urbano no Brasil”, assegura Bueno.

Grandes Construções – Como foi montada a engenharia financeira para captar os recursos e viabilizar os investimentos necessários ao Projeto Porto Maravilha?

Ricardo Bueno – Foi através da emissão de títulos públicos, de forma similar à realizada em São Paulo na operação Água Espraiada e Faria Lima. Foram emitidos os Certificados de Potencial Adicional de Construção – CEPACs, títulos de potencial construtivo, que foram levados a leilão e adquiridos em sua totalidade pela Caixa Econômica Federal. (N.R.: os CEPACs são títulos mobiliários emitidos pela prefeitura, utilizados como meio de pagamento de contrapartida para a outorga de Direito Urbanístico Adicional, dentro do perímetro de uma Operação Urbana Consorciada. Cada CEPAC equivale a determinado valor de m² para utilização em área adicional de construção ou em modificação de usos e parâmetros de um terreno ou projeto. O dinheiro da venda dos CEPACs paga todas as obras e serviços da Operação Urbana Porto Maravilha nos 5 milhões de m². Com isso, o município não desembolsa dinheiro para as obras e ainda economiza nos serviços públicos).

Grandes Construções -- Esses papéis já estão sendo comercializados no mercado?

Ricardo Bueno – Pelos lançamentos que nós temos visto aí no mercado imobiliário, sim. Tem um empreendimento que está sendo lançado até mesmo nesse terreno onde nós estamos, onde funciona hoje o nosso Canteiro Administrativo. É a Caixa, agora, que está avaliando os empreendimentos do mercado imobiliário para a região. À medida que os empreendimentos avançam nessa região, esses papéis são comercializados e valorizados.

Grandes Construções – Quem fica com o gerenciamento de todas as intervenções realizadas na área do Porto Maravilha?

Ricardo Bueno – A prefeitura criou uma empresa que se chama Companhia do Desenvolvimento da Região Portuária – Cedurp, que é a grande gestora do empreendimento, do Projeto Porto Maravilha. Foi ela, inclusive, que fez o lançamento da concorrência, e que é a nossa contratante. É a Cedurp quem faz toda a avaliação dos projetos do desenvolvimento da região portuária.

Grandes Construções – Isso ela faz diretamente ou é assessorada por alguma empresa especializada em gerenciamento?

Ricardo Bueno – Ela tem uma empresa contratada para o gerenciamento das obras, um consórcio de gerenciamento, que acompanha, dá o suporte técnico, tanto no que diz respeito à verificação da qualidade dos serviços quanto ao andamento das obras.

Grandes Construções – Há uma concessionária, que venceu uma concorrência para uma parceria administrativa de uma área, e essa concessionária contratou um consórcio construtor. Mesmo assim, ela ainda tem que prestar contas a um ente público dos cronogramas dessas obras? Ou é ela mesma que administra esses cronogramas e fiscaliza a execução das obras, a cada etapa do empreendimento?

Ricardo Bueno – Há duas avaliações. Uma é a avaliação dos serviços públicos na região, em que se tem a concessionária como uma empresa operacional. A concessionária já executa serviços como a coleta de lixo, ela faz a varrição das vias públicas, faz a manutenção dos semáforos e da iluminação pública. E ela é avaliada por essa prestação de serviços. A outra avaliação diz respeito ao acompanhamento das obras. Nesse aspecto, a concessionária é avaliada semestralmente para verificar se o andamento previsto para as obras está, de fato, sendo cumprido.

Grandes Construções – A esses serviços públicos, que a concessionária já vem executando, corresponde alguma forma de remuneração?

Ricardo Bueno – Sim, existe um pagamento, que é feito através de uma parcela mensal, correspondente à avaliação da qualidade dos serviços. Todo mês acontece uma prestação de contas e o pagamento é proporcional à avaliação positiva da qualidade dos serviços.

Grandes Construções – Com essa experiência - de se destacar um perímetro urbano, onde se busca uma excelência em termos de equipamentos urbanos, sistema viário, gestão, etc –, o que se busca é criar um modelo que possa ser replicado, futuramente, em uma escala maior, em outras áreas da cidade?

Ricardo Bueno – Sim, esse é um modelo pioneiro. A ideia é gerar um novo paradigma de qualidade de prestação de serviços públicos. E as empresas envolvidas nessa experiência acreditam muito que esse modelo possa ser replicado, até mesmo em outras capitais, em outras cidades, mudando o modelo existente. É a empresa privada prestando um serviço público para a comunidade.

Grandes Construções – Na área da gestão de trânsito, por exemplo, de que forma a concessionária está atuando, sabendo-se que existe um órgão responsável por esta atividade, que é a Companhia de Engenharia de Tráfego – CET-Rio?

Ricardo Bueno – Nós temos, nesse momento, mais de 120 operadores de tráfego em operação, e uma rede de câmeras de monitoramento instalada no perímetro do Porto Maravilha, fazendo a coordenação das diversas frentes, operando o trânsito. Essa estrutura está ligada a um Centro de Controle Operacional, que monitora o trânsito.

Grandes Construções – Mas não temos aí dois entes – um público e um privado – exercendo as mesmas funções? Porque a CET-Rio já faz isso.

Ricardo Bueno – Esse trabalho é alinhado com a CET-Rio. Essa equipe faz a gestão de tráfego dentro da região do projeto, sempre alinhada com a CET-Rio. Mas quem coordena as intervenções de tráfego, no perímetro do projeto, é sempre a Concessionária Porto Novo e sua equipe de tráfego. E a CET-Rio dá apoio se tiver uma extensão que ultrapasse os limites do projeto, da operação da concessionária, ou ainda se houver um reflexo das intervenções da região para fora da área portuária. A parte de emissões de portarias, por exemplo, é uma atribuição de estado, no caso, da CET. Portanto, esse trabalho de gestão do tráfego é feito a quatro mãos, entre as equipes de gestão de tráfego da concessionária e da CET-Rio.

Grandes Construções – Já deu para mensurar os primeiros resultados do início desta gestão privada?

Ricardo Bueno – Sim, já temos resultados consideráveis, tanto na redução do número de acidentes como em operações de apoio com uso de guinchos, na retirada das vias públicas de veículos quebrados, no Viaduto da Perimetral ou em outras vias importantes, como a Rodrigues Alves. Enfim, temos números bem animadores, que refletem o papel da Porto Novo na operação do tráfego na região. (N.R.: Após pouco mais de um ano de operações, a concessionária registrou queda de 60% no número de acidentes envolvendo veículos dentro do perímetro portuário – em agosto de 2012 foram 45 ocorrências, 70 a menos que o mesmo período do ano anterior). O importante é que se tenha uma reordenação do transporte público na região, uma racionalização, tanto da utilização do veículo particular, como das linhas de ônibus, municipais e intermunicipais, que circulam pela região – como destino final ou como passagem. O importante é que tudo isso seja reavaliado para trazer um resultado racional de transporte público para a região e, consequentemente, para a cidade.  Além disso, estamos implantando alguns sistemas complementares e, também pioneiros, com relação à coleta e disposição dos lixos nas ruas. Trata-se de um sistema de coleta e disposição do lixo enterrado. Toda essa atividade referente ao escopo da limpeza urbana, troca de lâmpadas de vias públicas, manutenção de jardins e praças, tudo isso já está em andamento com as equipes da Concessionária Porto Novo.

Grandes Construções – A região que é objeto dessas intervenções está há muito degradada, longe do foco da atuação do poder público municipal. O projeto Porto Maravilha é inspirado no programa de recuperação do Puerto Madero, em Buenos Aires, Argentina, uma região de 170 hectares, antes degradada, e que depois de um processo de revitalização foi transformada em um dos bairros mais modernos da cidade, além de centro financeiro e gastronômico da capital portenha?

Ricardo Bueno – O modelo que a prefeitura do Rio sempre menciona como sendo o benchmark para o Porto Maravilha é o modelo espanhol, da revitalização da região portuária de Barcelona, quando da realização das Olimpíadas de 1992. Com relação ao Puerto Madero, nós inclusive recebemos visitas do pessoal do projeto, só que a dimensão do Projeto Porto Maravilha é muito maior, tanto como área física quanto em volume de intervenções e conceito. Aqui nós teremos intervenções muito mais intensas do que as ocorridas no projeto argentino.

Grandes Construções – Levando-se em consideração as diversas ações, o conjunto de intervenções do Projeto Porto Maravilha como um todo, qual é a avaliação do avanço das obras, nesse momento?

Ricardo Bueno – Hoje nós temos entre 20% e 25% de avanço físico, obtidos a partir de mais de 33 frentes de trabalho simultâneas, em sete canteiros físicos, espalhados na região do projeto como um todo.

Grandes Construções – Quantos postos de trabalhos diretos essas obras já geraram?

Ricardo Bueno – Nesse momento nós temos 3.600 empregados, entre diretos e indiretos, com o potencial de geração de novas contratações para a abertura de novas frentes de trabalho que estão previstas, como por exemplo, a frente da Avenida Rodrigues Alves e da demolição do Elevado da Perimetral.

Grandes Construções – Quando será atingido o pico das obras e quantos empregos serão gerados nesse momento?

Ricardo Bueno – Esse pico será alcançado no segundo semestre de 2013, quando deveremos estar com cerca de 4.300 empregados. Em muitas frentes de trabalho, a essa altura, o funcionamento será em três turnos diários. Isso acontecerá, por exemplo, nas frentes de trabalho dos túneis e de alguns pontos da infraestrutura.

Grandes Construções – Esse esforço visa inaugurar as obras quando?

Ricardo Bueno – Na verdade não há uma data de inauguração formal. O que teremos é a conclusão gradual dos serviços que, tão logo aconteça, é disponibilizado para a cidade. Até porque o nível de intervenção é muito intenso e não podemos nos dar ao luxo de termos uma via pronta, porém fechada. Assim sendo, temos a programação dos grandes eventos desportivos – Copa 2014 e Jogos Olímpicos de 2016 – como marcos. A entrega do primeiro trecho da Avenida Binário do Porto, por exemplo, será entre junho e julho de 2013, com a liberação da avenida pronta. Já o túnel da Binário vai estar pronto em julho de 2014, e o Museu do Amanhã deverá estar pronto também no segundo semestre de 2014. E assim sucessivamente, sendo a última intervenção a ser entregue – a Avenida Expressa, que está relacionada à retirada do Elevado da Perimetral – com previsão para o primeiro semestre de 2016, para as Olimpíadas.

Grandes Construções – De todas as intervenções previstas, quais as que representam o maior desafio do ponto de vista de engenharia?

Ricardo Bueno – O conjunto dos túneis do novo sistema viário reúne as obras mais desafiadoras, tanto nas questões técnicas, executivas, quanto com relação à interferência no dia a dia da cidade. Há uma série de providências que tem de ser tomadas, para desvio de tráfego, para permitir o acesso aos escritórios, às residências, porque a vida na cidade tem de continuar, as pessoas continuam vivendo suas rotinas, simultaneamente às nossas intervenções. Na Praça Mauá, por exemplo, nós temos uma grande frente de trabalho da via do Binário, com intensas atividades incluindo retirada de materiais. Lá nós tentamos concentrar as atividades de retirada de materiais no horário noturno, quando se tem uma cidade um pouco mais tranquila, para se poder movimentar grande número de caminhões. Mas nós buscamos ter uma convivência pacífica ao longo do dia, para que possamos concluir todas as etapas previstas no cronograma.

Grandes Construções – Então, um grande desafio é tentar impactar o mínimo possível o sistema de mobilidade existente, até que se concluam os trabalhos e seja disponibilizado para a população o novo sistema, em construção.

Ricardo Bueno – Exatamente. E procurando oferecer à cidade uma alternativa, sempre que temos de retirar da população um equipamento urbano necessário ao seu dia a dia, de forma que a cidade possa tocar sua rotina normalmente.

Grandes Construções – Como tem sido o diálogo com as associações de moradores, associações comerciais e demais entidades que representam os interesses dessa população?

Ricardo Bueno – Nós temos levado a todas as partes envolvidas no projeto, direta ou indiretamente, as informações gerais do empreendimento, cada uma das etapas, todas as intervenções, notadamente as questões relacionadas às detonações, que sempre causam uma certa apreensão. Informamos à comunidade como elas vão se dar, em que horários, etc. De uma forma geral, nós temos tido uma receptividade e um entendimento muito bons. Quando você mostra como o projeto vai ficar, quando concluído, a aceitação é sempre muito boa.

Grandes Construções – No escopo do projeto, quais as intervenções previstas para o sistema viário? Quantos quilômetros de novas vias estão previstos para serem construídos.

Ricardo Bueno – Nós estamos falando de intervenções em 70 quilômetros de vias reurbanizadas, remodeladas, entre avenidas e ruas menores, além de ciclofaixas, de toda essa região portuária, que compõem 5 milhões de metros quadrados, que é a área de intervenção do projeto.

Grandes Construções – Quando se fala na demolição do elevado da Avenida da Perimetral, a primeira preocupação do público é com os impactos que isso terá sobre a mobilidade na cidade. Que garantias a população terá de que isso não vai agravar ainda mais a situação do tráfego? Para onde vão os veículos que hoje circulam por esse conjunto viário?

Ricardo Bueno – O sistema que está sendo implantado oferecerá uma capacidade maior do que a existente. Para se ter uma ideia, hoje o Elevado da Perimetral tem capacidade para 7.600 veículos por hora, e nós estamos elevando isso para 10.500 veículos/hora. É obvio que nós teremos que fazer toda uma racionalização da utilização das vias; das linhas de ônibus, que são grandes geradoras da movimentação da região; da própria atividade portuária, visto que o porto está em operação. Tudo isso vai ser rearranjado de forma racional para a região e permitir que todo o crescimento imobiliário, que está sendo previsto para a região, seja viável. Precisamos dotar a região da infraestrutura necessária para receber os novos moradores, as empresas que vão chegar na região, e toda essa demanda adicional.

Grandes Construções – Quais as principais intervenções nesse sistema viário?

Ricardo Bueno – Uma delas é a construção da Avenida do Binário, que inclui a construção de um túnel de 1.537 metros, que começa na Avenida 10  de Março e acaba perto do Moinho Fluminense, permitindo o fluxo no sentido Aeroporto Santos Dumont-Rodoviária Novo Rio. Esse túnel está com aproximadamente 40% de escavação feita e em franco andamento. Outra intervenção importante é a construção da Avenida Expressa, que inclui dois túneis paralelos, cada um com três faixas de circulação. Esses túneis terão 3.600 metros de extensão, interligando as proximidades do Armazém 6, da Região Portuária, com a Praça XV, no Centro. Esse conjunto vai permitir que todo o tráfego de passagem na região chegue à Avenida Rodrigues Alves e saia perto do Terceiro Comando Aéreo Regional – 3o Comar, perto do Aeroporto Santos Dumont.  A Avenida do Binário se destinará ao fluxo local de veículos, e a Expressa, aos veículos que hoje utilizam a Perimetral apenas para a passagem pela região, nos deslocamentos para o aeroporto ou para o Aterro do Flamengo, e vice-versa.

Grandes Construções – Como esses túneis estão sendo escavados? Quais os métodos construtivos eleitos?

Ricardo Bueno – Nós fizemos um amplo mapeamento do subsolo de toda a zona portuária, numa campanha muito intensa de sondagens, que nos permitiu definir o gnaisse como rocha preponderante na região. Com essas informações nós ajustamos o traçado dos túneis para manter a escavação preponderantemente em rocha. Portanto, os túneis têm de 80% a 85% do volume de escavações em rocha. Isso gera uma maior segurança e uma redução de interfaces na superfície. Ou seja, você executa menos serviços na superfície e executa mais serviços de maneira subterrânea. E essa condição nós temos tanto na via do Binário quanto na Expressa. Além dessa grande incidência de rocha, nós temos ainda muitos trechos de solo arenoso, que está sendo tratado com uma série de injeções de calda de cimento, em jet grouting ou CCPH, para consolidar esse material e permitir sua escavação. Nos trechos que são preponderantemente em areia, nós vamos usar a metodologia do cut-and-cover. Há ainda um trecho em rocha alterada, onde nós vamos levar em escavação em meia seção e rebaixo, ou eventualmente com as galerias laterais, side-drifts. No Projeto Executivo está prevista a compartimentação das escavações, que é avaliada mediante o avanço das obras.

Grandes Construções – Há alguma ação voltada para o reaproveitamento do material retirado dos túneis?

Ricardo Bueno – Sim, todo esse material rochoso, fruto das escavações, está sendo processado em um terreno próximo. Ele está sendo britado a fim de ser utilizado nas obras de pavimentação. O material que é escavado na região permanece nela.

Grandes Construções – Os senhores têm uma avaliação do volume de materiais retirados e a quantidade de caminhões envolvidos nesse esforço?

Ricardo Bueno – De rocha, a nossa estimativa é da movimentação total de 200 mil  de movimentação, na região toda. Quanto ao restante do material, o volume não é preciso porque depende da qualidade do material encontrado ao longo das obras, para aproveitamento na pavimentação. Se encontrarmos material sem capacidade para pavimentação, teremos de fazer a troca do material.

Grandes Construções – Qual o plano de fogo definido para esse trabalho de escavação em rocha?

Ricardo Bueno – Nós estamos buscando fazer duas detonações diárias, sendo uma logo pela manhã e outra ao final do dia. Durante a execução dos postos de acessos e dos emboques dos túneis, a percepção das detonações é muito maior. Nesses momentos nós fazemos toda uma verificação das edificações na faixa de interferência da execução dos serviços e continuamos monitorando esses imóveis durante todo o avanço das escavações. Mas quando nós estamos mais para dentro do túnel, a interferência no entorno é menor. Nós acionamos uma sirene para avisar que vai haver a detonação, é feita a divulgação dos horários das detonações, porque existe a questão do ruído. Mesmo assim, nós estamos totalmente dentro dos parâmetros previstos em normas no que diz respeito à emissão de ruídos, movimentação, à sismografia. E acompanhamos todas as variáveis com relação aos efeitos dessas atividades na superfície.

Grandes Construções – Como estão sendo encaminhadas as questões relativas às desapropriações? Há um grande número de ações nesse sentido?

Ricardo Bueno – Nós temos um número muito pequeno de desapropriações. Estamos levando os túneis com escavações profundas e, na superfície, apenas alguns imóveis estão sendo desapropriados para a implantação do geométrico do viário. Há, ainda algumas desapropriações próximo à rodoviária, onde haverá a intersecção do Viaduto do Gasômetro e as alças de acesso à via do Binário, para permitir a acomodação desse novo geométrico que está sendo implantado. Mas, de uma maneira geral, nós temos utilizado as vias existentes. Algumas delas estavam esquecidas, como a Via Trilhos, que era destinada à movimentação dos trens que acessavam os galpões da região portuária. Essa via está sendo devolvida para a cidade como uma avenida. Há ainda algumas desapropriações pontuais, para complementar a área para a implantação do viário.

Grandes Construções – Uma obra desse porte implica na montagem de grandes canteiros e mobilização de equipamentos de grande porte, em pleno centro urbano, ativo. Como foi encarar esse desafio?

Ricardo Bueno – De fato, nós temos equipamentos muito pesados, principalmente nos poços de acesso às obras dos túneis, como gruas, pórticos, jumbos, além de escavadeiras. É sempre um grande desafio. A gente procura fazer essa movimentação em horários fora do pico, para compatibilizar as nossas necessidades com os principais fluxos da região. De uma maneira geral, a logística que foi montada tem sido bastante satisfatória e os impactos decorrentes disso tem sido bem administráveis. Essa tem sido uma preocupação nossa desde o início das obras.

Grandes Construções – Como foi a questão da contratação da mão de obra para dar o start nas obras? Houve alguma dificuldade nesse sentido?

Ricardo Bueno – Nós temos aqui uma grande diversidade de tipos de mão de obra, de serviços, onde a mais específica é a voltada para a escavação dos túneis, o pessoal de demolição. Nós trazemos esse pessoal de outros contratos que tivemos. Eles acompanham as frentes de trabalho e nós lhes oferecemos alojamentos. Tem outro pessoal também qualificado, que é o de acabamento, voltado para as edificações. É o pessoal que trabalha no Museu do Amanhã, por exemplo. Trata-se de outro perfil de profissional, que nos acompanha de outras obras. E complementamos esses grupos com a mão de obra local. Mas o grande contingente, mesmo, é composto por mão de obra do Rio de Janeiro mesmo, e da Baixada Fluminense, que é a grande provedora desses recursos o Rio de Janeiro. Além disso, nós temos investido muito, através de parcerias com o Sesi e Senai, em formação, capacitação e aumento de produtividade de mão de obra específica. Esse será mais um legado para a região, após a conclusão das obras.