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30 de junho de 2014
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Entrevista

Construção, uma atividade mortal. Até quando?

Entrevista com Cosmo Palasio, técnico em Segurança do Trabalho, e membro da Associação Brasileira dos Profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho e do Meio Ambiente (Abraphiset)

Todos os dias morrem três operários na construção civil no Brasil. O cenário dramático ficou evidenciado e ganhou as páginas dos jornais com a sequência de mortes de operários nove em obras de modernização ou construção dos estádios para a Copa do Mundo de 2014, e dois nas intervenções para ampliação de um shopping center em Campinas (SP). No entanto, essa série de eventos que não chega a retratar a gravidade do problema. O setor ocupa o terceiro lugar em número de acidentes, em relação às demais atividades econômicas. Segundo a Previdência Social, a Construção está em segundo lugar em número de óbitos decorrentes de acidentes de trabalho, perdendo apenas para o setor de Transporte Rodoviário de Cargas.

Em 2012, o Brasil registrou 705.239 acidentes de trabalho, sendo 22.330 relacionados ao setor da construção. O índice apresentou uma pequena redução se comparado ao ano anterior, quando foram notificados 720.649 acidentes em todo o País, dos quais, 22.382 nos canteiros de obras. Já em 2010, dos 709.474 acidentes relatados nas diversas atividades produtivas, 20.336 ocorreram no setor da construção.

A queda é a causa morte mais comum entre os profissionais da construção civil. Na sequência, aparecem os soterramentos e os choques elétricos.

Para entender o problema, Grandes Construções ouviu um dos maiores especialistas no assunto. Cosmo Palasio, é técnico em Segurança do Trabalho, e membro da Associação Brasileira dos Profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho e do Meio Ambiente (Abraphiset).

Provocador, ele reconhece que as empresas do setor têm empreendido esforços louváveis para reverter a situação. Mas sentencia: “Há uma distância imensa entre o louvável e o necessário”.

Grandes Construções – O grande volume de obras nos últimos anos, no Brasil, principalmente aquelas relacionadas à preparação para os jogos da Copa do Mundo, trouxe para a primeira página dos jornais questões relacionadas às condições de trabalho da cadeia da construção. Porque ainda ouvimos falar em problemas como negligência com segurança e prevenção de acidentes, trabalhador não qualificado e falta de condições de trabalho, em pleno Século XXI?

Cosmo Palasio – Creio que isso ocorre por pelo menos por dois grandes motivos. O primeiro é que se tem a impressão, no Brasil, de que tudo se muda através de leis, e isso não é verdade. Tanto que temos aí uma serie de "leis que não pegaram", que apenas criam a falsa sensação de modernidade e mudanças. Para se ter algum sucesso com esse "modelo" de mudanças, há necessidade de ações rápidas por parte da Justiça, e isso ainda não temos no Brasil. O segundo diz respeito à cultura existente em relação a certos assuntos, que hora se baseia em comparações singelas do como era antes e do como é hoje. E é claro sempre se acha que temos o melhor, quando muitas vezes o “melhor” não atende minimamente à legislação. Por detrás disso tudo existe o desconhecimento da grande maioria das pessoas sobre o assunto, do que é necessário não apenas para cumprir leis, mas para promover transformações reais nas relações de trabalho no setor.