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20 de abril de 2018
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Entrevista

A nova Concremat

Eduardo Viegas: nova geração à frente da Concremat

Quando a gigante chinesa China Communications Construction Company (CCCC) comprou 80% do capital da brasileira Concremat Engenharia por R$ 350 milhões, em novembro de 2016, trouxe para o mercado uma grande incógnita. Com o país mergulhado na Lava Jato, qual seria futuro para empresas tradicionais como a Concremat, com mais de 60 anos no mercado e uma longa história de contribuição para a engenharia brasileira?

Nesta entrevista, Eduardo Viegas, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios da Concremat e Arthur Sousa, vice-presidente executivo da Concremat respondem a essa dúvida do mercado. Ao mirar a Concremat, o conglomerado chinês, com negócios em infraestrutura, equipamentos pesados e serviços de dragagem, estava em busca de uma empresa de engenharia para ter as certificações necessárias a um plano de investimento ambicioso no país, de cerca de US$ 1 bilhão no médio prazo. Entre os vários mercados em que atua está o de transportes, no qual realiza estudos preliminares e de viabilidade, projetos conceituais e planos diretores, projetos básicos e executivos, supervisão e gerenciamento de obras e programas de investimentos. Criada na época da construção de Brasília pelo pioneiro Mauro Ribeiro Viegas, a empresa constituiu um dos maiores portfólios técnicos do país, com atuações nas mais diversas áreas da Engenharia e Tecnologia. Dentre os setores que mais interessam aos chineses está o de saneamento e portos, considerado promissor, e o de petróleo  e gás, carro chefe forte da Concremat, atingido mortalmente pela Lava Jato.

De acordo com os jovens executivos, foi essa atuação diversificada no campo dos contratos que deu folego para a empresa enfrentar a crise no pior momento da recessão, enquanto muitos sucumbiam, mantendo-se no mercado e até mesmo crescendo. Além de tornar-se a base da CCCC para a América Latina, a Concremat é também o braço de consultoria para novos investimentos no país.

Já a CCCC é a maior empresa de infraestrutura da China, com presença na construção e na operação de ativos em outros países.  No fim do ano passado tinha US$ 150 bilhões investidos em concessões de infraestrutura de transportes - de empreendimentos prontos aos ainda em construção.

O conglomerado tem capital misto, mas o controle é estatal e está listado na Bol


Eduardo Viegas: nova geração à frente da Concremat

Quando a gigante chinesa China Communications Construction Company (CCCC) comprou 80% do capital da brasileira Concremat Engenharia por R$ 350 milhões, em novembro de 2016, trouxe para o mercado uma grande incógnita. Com o país mergulhado na Lava Jato, qual seria futuro para empresas tradicionais como a Concremat, com mais de 60 anos no mercado e uma longa história de contribuição para a engenharia brasileira?

Nesta entrevista, Eduardo Viegas, vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios da Concremat e Arthur Sousa, vice-presidente executivo da Concremat respondem a essa dúvida do mercado. Ao mirar a Concremat, o conglomerado chinês, com negócios em infraestrutura, equipamentos pesados e serviços de dragagem, estava em busca de uma empresa de engenharia para ter as certificações necessárias a um plano de investimento ambicioso no país, de cerca de US$ 1 bilhão no médio prazo. Entre os vários mercados em que atua está o de transportes, no qual realiza estudos preliminares e de viabilidade, projetos conceituais e planos diretores, projetos básicos e executivos, supervisão e gerenciamento de obras e programas de investimentos. Criada na época da construção de Brasília pelo pioneiro Mauro Ribeiro Viegas, a empresa constituiu um dos maiores portfólios técnicos do país, com atuações nas mais diversas áreas da Engenharia e Tecnologia. Dentre os setores que mais interessam aos chineses está o de saneamento e portos, considerado promissor, e o de petróleo  e gás, carro chefe forte da Concremat, atingido mortalmente pela Lava Jato.

De acordo com os jovens executivos, foi essa atuação diversificada no campo dos contratos que deu folego para a empresa enfrentar a crise no pior momento da recessão, enquanto muitos sucumbiam, mantendo-se no mercado e até mesmo crescendo. Além de tornar-se a base da CCCC para a América Latina, a Concremat é também o braço de consultoria para novos investimentos no país.

Já a CCCC é a maior empresa de infraestrutura da China, com presença na construção e na operação de ativos em outros países.  No fim do ano passado tinha US$ 150 bilhões investidos em concessões de infraestrutura de transportes - de empreendimentos prontos aos ainda em construção.

O conglomerado tem capital misto, mas o controle é estatal e está listado na Bolsa de Hong Kong.  A companhia tem projetos na Argentina, no Peru e na América Central, mas o maior potencial de crescimento é no Brasil. Até se tornar sócia da WPR no projeto do porto de São Luís, a CCCC atuava no país fornecendo equipamentos e serviços de suas subsidiárias.

Arthur Souza: empresa em busca de inovação

Revista Grandes Construções - A CCCC aportou definitivamente no Brasil com a aquisição de parte da Concremat. Qual é o foco de interesse da empresa no Brasil e por quê?

Eduardo Viegas - O acordo firmado entre a Concremat e o conglomerado chinês China Communications Construction Company (CCCC), um dos líderes globais do setor de infraestrutura e com atuação na construção de portos e ferrovias e também no segmento de dragagens e fabricação de guindastes para contêineres, coloca a empresa em um novo patamar de desenvolvimento. Juntas, as empresas buscam crescimento sustentável, inovação, tecnologia e melhor utilização de recursos no setor de engenharia e construção. Com a parceria, a Concremat é capaz de usar sua experiência e inteligência de mercado para mapear oportunidades e executar projetos em diversas frentes de infraestrutura para nosso controlador em outros países da América Latina.

GC - A companhia brasileira continua no comando da operação. Como se dá esse novo processo de gestão em coparceria?

Eduardo Viegas - A CCCC tem um imenso respeito ao conhecimento local e deseja que a Concremat siga sendo percebida como uma empresa brasileira, com corpo técnico e de gestão nacional. Preservamos nossa cultura de empresa familiar obstinada em criar impacto positivo nos desafios de seus clientes, e que estimula a inovação e o comprometimento com o resultado do cliente. Sobre o processo de gestão em coparceria, iniciamos um programa de intercâmbio técnico para que nossos engenheiros possam trocar experiências e conhecimento que devem trazer benefícios para o Brasil e nossos clientes.

GC - O que mudou no dia-a-dia da empresa? O escopo de atuação da Concremat continua o mesmo?

Eduardo Viegas - A Concremat mantém seu negócio principal, de elaboração de projetos, gerenciamento de obras, controle tecnológico e serviços ambientais. Temos posição de liderança nestes mercados e a estratégia é que sigam dessa forma. A associação com a CCCC nos coloca ainda em uma posição favorável para desenvolver atividades de EPC para o segmento de infraestrutura. Uma das metas da CCCC é investir em concessões e projetos privados de infraestrutura, principalmente nos segmentos de portos, ferrovias e mobilidade urbana. Nestes projetos, a Concremat terá uma atuação estratégica em todas as etapas do empreendimento, desde a análise da viabilidade técnica, passando pelo desenvolvimento dos projetos de engenharia até a implantação das obras de construção.

GC - Como isso se refletiu na capacidade da empresa de enfrentar a crise no Brasil?

Eduardo Viegas - A crise econômica e política no Brasil não inibe a estratégia da empresa de longo prazo. O desafio do curto-médio prazo vem sendo superado com muita determinação e com a competência de nossas equipes.

GC - Que estratégias foram adotadas para manter a liderança do ranking? Quanto a receita da empresa caiu do início da crise para cá?

Eduardo Viegas - A Concremat intensificou a busca pelo equilíbrio econômico-financeiro. Neste cenário, conquistamos novos clientes e aumentamos a participação de contratos de maior valor agregado, indicando o progresso na capacidade de entender melhor nossos clientes e ofertar soluções tecnicamente inovadoras e eficientes com os melhores quadros técnicos.

Também mantivemos nossos esforços de capacitação de equipes e de aperfeiçoamento de nossas metodologias operacionais. Afinal, acreditamos que nossa singularidade cada vez mais está associada à nossa cultura de desenvolvimento de talentos e de aperfeiçoamento de metodologias - como a disseminação da plataforma BIM, do Lean Construction e na área Ambiental, o servico “turn-key” ambiental.

GC - Que tecnologias ou inovações devem ser inseridas na empresa brasileira sob influência dos chineses? E o que a empresa chinesa pode aprender com a operação brasileira e levar para outros negócios?

Arthur Sousa - Acreditamos que a Concremat e o mercado nacional de forma geral terão influências em relação a métodos construtivos mais rápidos. Isso envolve novas tecnologias para pré-moldados e impressões 3D, incremento da utilização do BIM para projetos de infraestrutura, aquisição de equipamentos de construção e montagem com alta tecnologia a valores muito competitivos, bem como influência do crescimento de investimentos chineses em energias renováveis (principalmente eólica e solar) e mobilidade urbana.

Em contrapartida, a empresa chinesa poderá aprender com a operação brasileira em relação às tecnologias e metodologias de ponta utilizadas pela Concremat para otimizar a gestão e prestação de serviços, obter frutos da relação estreita que a companhia tem com seus clientes, parceiros e fornecedores, o jeito inovador para desenvolver novos modelos de negócio com entes privados e públicos e, com certeza, aprender sobre o processo de aquisições e contratações de serviços de Engenharia no mercado latino americano.

Área de portos é um dos principais focos da Concremat hoje

GC - Quais são os setores mais promissores hoje para engenharia brasileira, nesse novo cenário? Onde estão surgindo novos contratos ou estudos de projetos?

Arthur Sousa - O aquecimento do mercado de fusões e aquisições, além do interesse de investidores estrangeiros em ativos no país, abriu um amplo mercado para as Due Diligence Técnicas, e estamos apostando na prestação deste serviço.

Também temos muitas oportunidades na área de Energia. Entre outros contratos, a Concremat concluiu no final do ano passado os serviços de Engenharia do Proprietário da construção do mais novo parque eólico do Brasil. O projeto, que durou dois anos, empregou as mais modernas tecnologias de gestão para acompanhar de forma interativa o desenvolvimento das obras.

GC - Quando esses projetos devem deslanchar?

Eduardo Viegas - O primeiro projeto deve ocorrer neste ano no setor portuário e outros estão previstos para 2019.

GC - Quais são hoje as regiões mais atrativas para a Concremat?

Eduardo Viegas - Temos atuação nacional, com 10 escritórios regionais, localizados nas principais capitais, que nos possibilitam oferecer a nossos clientes maior eficiência e conhecimento local, tanto técnico como de mercado. E a Concremat está ampliando sua atuação no exterior. Assumimos o projeto das obras de engenharia para revitalização de uma estrada na Bolívia cujos serviços estão sendo financiados pelo Banco Internacional de Desenvolvimento (BID). A expectativa é chegar aos R$ 50 milhões em contratos de serviços de consultoria de engenharia no exterior até o final do ano.

Porto de São Luis, no Maranhão: ponto estratégico para o escoamento de mercadorias

GC - Hoje se fala em indústria 4.0, inteligência artificial, entre outras. Como a empresa está inserindo essas novas tecnologias, como o BIM, no seu campo de atuação?

Arthur Sousa - Enxergamos a inovação como um meio para buscar novos caminhos e oportunidades. Por isso, mesmo neste cenário de instabilidade, ela ainda está presente em nossas estratégias e priorizada para projetos de impacto no curto prazo. Nos últimos anos, fomos reconhecidos como uma das empresas mais inovadoras no setor de construção e infraestrutura, estando sempre entre os três primeiros lugares do Prêmio Valor Inovação. Para o futuro, vemos uma revolução tecnológica no mundo e não será diferente para a Engenharia Consultiva. A maior mudança será na forma de gerir informações durante todo o ciclo do empreendimento. Desde 2012, a Concremat tem investido continuamente no BIM como P&D, com uma média de 2 milhões por ano. Além disso, temos acompanhado de perto o crescimento do IoT na indústria da construção e também a utilização de tecnologias mobile em campo. Atualmente temos mais de 20 contratos com solução mobile implementada nos escopos de Inspeções, Qualidade, Levantamento, Supervisão e Fiscalização.

Empresa aderiu as plataformas digitais e apoia startups do setor de construção

GC - Como está ocorrendo a transição na empresa, com a inserção dos novos talentos?

Arthur Sousa - No ano de 2017, o Instituto de Desenvolvimento (ID) focou suas iniciativas com o objetivo de garantir a eficiência da operação e da organização em um cenário economicamente instável. A Trilha de Desenvolvimento, com base nas competências da empresa, é realizada de acordo com o PDI (Plano de Desenvolvimento Individual), resultado do Mapeamento de Talentos e da Avaliação Anual de Desempenho. Por meio dessas ferramentas de gestão de pessoas, a área de Recursos Humanos consegue mapear seus talentos e renovar, gradativamente, seu quadro técnico.

A transição para cargos executivos é planejada de forma a preservar os profissionais mais sêniores na organização. Inclusive, alguns ex-executivos da Concremat permanecem na empresa com a atribuição de disseminar conhecimento e contribuir para a formação das novas gerações de profissionais.

Além disso, a empresa também promove algumas iniciativas como Portal do Conhecimento e a Rede de Especialistas, que são utilizadas para fomentar a Gestão do Conhecimento e fortalecer o conteúdo técnico em diversas disciplinas, valorizando o capital intelectual da Concremat. Acreditamos que estas iniciativas, quando integradas, são primordiais para a retenção dos novos talentos.