Assessoria de Imprensa
19/06/2026 11h33 | Atualizada em 19/06/2026 11h44
Por Gilberto Kaminski*
A construção civil brasileira vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o setor mantém níveis elevados de atividade, amplia a geração de empregos e sustenta uma carteira robusta de obras, empresas enfrentam dificuldades crescentes para contratar profissionais qualificados e controlar os custos de produção.
O cenário tem provocado impactos diretos nos orçamentos, nos cronogramas e na rentabilidade dos empreendimentos.
Embora os reajustes salariais definidos por convenções coletivas sejam frequentemente apontados como um dos fatores de pressão sobre os custos, especialistas do setor afirmam
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Por Gilberto Kaminski*
A construção civil brasileira vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o setor mantém níveis elevados de atividade, amplia a geração de empregos e sustenta uma carteira robusta de obras, empresas enfrentam dificuldades crescentes para contratar profissionais qualificados e controlar os custos de produção.
O cenário tem provocado impactos diretos nos orçamentos, nos cronogramas e na rentabilidade dos empreendimentos.
Embora os reajustes salariais definidos por convenções coletivas sejam frequentemente apontados como um dos fatores de pressão sobre os custos, especialistas do setor afirmam que a principal influência atualmente está na dinâmica de mercado entre oferta e demanda por trabalhadores especializados.
A construção civil ultrapassou recentemente a marca de 3 milhões de trabalhadores formais no Brasil, o maior nível desde 2014, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Apesar disso, a percepção das empresas é de que a oferta de profissionais não acompanha o ritmo da demanda.
A dificuldade é particularmente visível em funções operacionais especializadas, como mestres de obras, pedreiros, carpinteiros e instaladores. O fenômeno tem origem em uma transformação gradual do mercado de trabalho: muitos jovens deixaram de enxergar a construção civil como uma opção de carreira, migrando para atividades ligadas à economia de plataformas, comércio e serviços.
Na prática, profissionais mais experientes passaram a ter maior poder de negociação. Em vez de contratos baseados exclusivamente em horas trabalhadas, tornou-se comum a remuneração por produtividade ou por tarefa executada. Em um ambiente de forte demanda, esses trabalhadores conseguem selecionar projetos mais atrativos e exigir valores mais elevados para atuar nos canteiros.
O resultado é um aumento dos custos de mão de obra acima da percepção tradicional baseada apenas nos índices de reajuste salarial ou índices setoriais. A valorização dos profissionais qualificados tornou-se um dos principais desafios para construtoras que precisam cumprir prazos e manter padrões de qualidade em um mercado cada vez mais competitivo.
A situação se torna ainda mais relevante diante da perda de produtividade observada no setor. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a produtividade da construção civil caiu 20,4% nos últimos 30 anos.
Esse movimento pode ser observado na variação da proporção entre materiais e mão de obra que compõem o Custo Unitário Básico (CUB) que há 25 anos era de 40% de mão de obra e 60% para materiais e hoje está se aproximando de 60% de mão de obra e 40% para materiais.
A pressão também se estende à locação de equipamentos. Com um número elevado de empreendimentos simultaneamente em execução, fornecedores de máquinas e equipamentos operam com alta utilização de seus ativos, fatores que dificultam a negociação de valores para compor os orçamentos das construtoras.
Influência da economia global - Além dos fatores domésticos, a cadeia da construção civil continua altamente sensível às oscilações da economia global. Tensões geopolíticas, conflitos internacionais e gargalos logísticos afetam diretamente a disponibilidade e o preço de matérias-primas utilizadas em obras.
Produtos derivados do petróleo estão entre os mais vulneráveis. Itens como tubos de PVC, componentes plásticos, materiais impermeabilizantes e diversos insumos químicos dependem da estabilidade do mercado internacional de energia. Qualquer interrupção relevante nas cadeias globais de abastecimento pode provocar aumentos de custos que acabam sendo repassados para toda a cadeia produtiva.
O impacto não se limita aos materiais. O transporte de cargas também sofre influência direta das oscilações no preço dos combustíveis, afetando tanto a entrega de matérias-primas para as indústrias quanto a distribuição de produtos acabados para os canteiros de obras.
Esses fatores ajudam a explicar as variações recentes registradas em indicadores como o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), utilizado como referência para acompanhar a evolução dos custos do setor.
No médio e longo prazo, a tendência é que os preços dos materiais continuem sujeitos às condições do cenário internacional, podendo registrar períodos de alta ou de acomodação conforme a evolução dos conflitos geopolíticos, da logística global e da disponibilidade de insumos.
*Gilberto Kaminski, diretor diretor de PCP da Thá Engenharia
18 de junho 2026
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