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06 de agosto de 2010
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Perfil

Pioneiro do Concreto no Brasil

“Professor” Mauro Viegas, fundador da Concremat, dedicou sua vida à pesquisa que ajudou a consolidar a tecnologia no País

Nos idos de 1950, o elevado número de quedas de marquises suscitava a curiosidade dos estudantes de arquitetura e engenharia da época. Foi instado por eles, que o jovem professor Mauro Ribeiro Viegas, formado pela primeira turma da Faculdade de Arquitetura, passou a visitar as ocorrências a fim de descobrir a causa do problema.  “A ganância do homem faz com que ele se esqueça de sua responsabilidade”, disse ao constatar o uso de areia de praia e pedra britada sem conhecimento de origem.

Decidido a estudar a questão, abandonou o escritório de arquitetura que mantinha e abriu o Escritório Técnico Professor Mauro Ribeiro Viegas – Controle de Concreto/ Ensaios de Materiais, que seria embrião da futura Concremat. Na ocasião, ele passou então a colher amostras dos materiais – areia, brita, cimento – levando-as a ensaios de resistência, de acordo com as normas técnicas existentes na época, a maior parte não nacionalizadas. “Mauro, você vai morrer de fome com essa ideia de criar esse tipo de firma”, dizia seu amigo João Carlos Vital, que viria a ser prefeito do Rio de Janeiro. Então, o uso do concreto no Brasil algo recente e os serviços de controle e análise, praticamente inexistentes.

O professor Mauro, como é chamado ainda hoje, apresentava-se às construtoras e descrevia as vantagens técnicas e econômicas de realizar o controle prévio dos materiais. Enquanto o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) demorava 15 dias para apresentar o resultado, acarretando a interrupção da obra, o escritório de Mauro levava de cinco a sete dias para entregá-lo. “Eu vou lhe dar a composição exata necessária dos materiais de construção e você economizará” dizia ele aos construtores. Em 1958 transformou a firma em Sociedade Civil de Controle de Concreto e Ensaios de Materiais no primeiro escritório técnico no País a obter a licença para esse tipo de trabalho.

Foi com esse espírito que o professor Mauro decidiu aventurar-se na construção da nova capital. Todos os insumos eram importados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, exigindo análises para garantia da qualidade. No entanto, havia poucas empresas ou profissionais capazes de prestar esse tipo de serviço. E a maioria não queria ir até a nova capital.

“Eu me aventurei a montar um laboratório em Brasília, transportando-o de avião. O cerrado era uma área totalmente nova e desconhecia-se


Nos idos de 1950, o elevado número de quedas de marquises suscitava a curiosidade dos estudantes de arquitetura e engenharia da época. Foi instado por eles, que o jovem professor Mauro Ribeiro Viegas, formado pela primeira turma da Faculdade de Arquitetura, passou a visitar as ocorrências a fim de descobrir a causa do problema.  “A ganância do homem faz com que ele se esqueça de sua responsabilidade”, disse ao constatar o uso de areia de praia e pedra britada sem conhecimento de origem.

Decidido a estudar a questão, abandonou o escritório de arquitetura que mantinha e abriu o Escritório Técnico Professor Mauro Ribeiro Viegas – Controle de Concreto/ Ensaios de Materiais, que seria embrião da futura Concremat. Na ocasião, ele passou então a colher amostras dos materiais – areia, brita, cimento – levando-as a ensaios de resistência, de acordo com as normas técnicas existentes na época, a maior parte não nacionalizadas. “Mauro, você vai morrer de fome com essa ideia de criar esse tipo de firma”, dizia seu amigo João Carlos Vital, que viria a ser prefeito do Rio de Janeiro. Então, o uso do concreto no Brasil algo recente e os serviços de controle e análise, praticamente inexistentes.

O professor Mauro, como é chamado ainda hoje, apresentava-se às construtoras e descrevia as vantagens técnicas e econômicas de realizar o controle prévio dos materiais. Enquanto o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) demorava 15 dias para apresentar o resultado, acarretando a interrupção da obra, o escritório de Mauro levava de cinco a sete dias para entregá-lo. “Eu vou lhe dar a composição exata necessária dos materiais de construção e você economizará” dizia ele aos construtores. Em 1958 transformou a firma em Sociedade Civil de Controle de Concreto e Ensaios de Materiais no primeiro escritório técnico no País a obter a licença para esse tipo de trabalho.

Foi com esse espírito que o professor Mauro decidiu aventurar-se na construção da nova capital. Todos os insumos eram importados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, exigindo análises para garantia da qualidade. No entanto, havia poucas empresas ou profissionais capazes de prestar esse tipo de serviço. E a maioria não queria ir até a nova capital.

“Eu me aventurei a montar um laboratório em Brasília, transportando-o de avião. O cerrado era uma área totalmente nova e desconhecia-se os tipos de solos presentes ali. Eu descia numa cadeirinha 20 m abaixo do solo para coletar as amostras. Não havia muita segurança. No final do dia, ficávamos todos com as roupas impregnadas de pó”, relembra. As abóbodas da Câmara e do Senado eram verdadeiras “cascas” de concreto, obrigando a manutenção de uma prensa no canteiro de obras para acompanhamento diário das concretagens. Ele trabalhou intensamente em Brasília durante dois anos.

Em 21 de abril de 1960, com a inauguração da nova capital, o professor passou o laboratório para seu engenheiro auxiliar e encerrou suas atividades em Brasília. Apesar de ter elevado seu prestígio profissional, também contraiu uma hepatite, que exigiu repouso e medicamentos para ser curada.

Currículo amplo
Estes e mais “causos” da vida do fundador da Concremat estão retratados no livro Mauro Ribeiro Viegas, a construção de uma vida, da arquiteta e escritora Lilian Fontes. E sua leitura serve como uma aula sobre políticas públicas, uma vez que o professor Mauro notabilizou-se na área acadêmica, com pesquisas e interesse na área do concreto, além de ter atuado diretamente nas principais intervenções urbanas do Rio de Janeiro, entre as décadas de 1950 e 1970, passando pela área de parques e jardins, saneamento e habitação. O ponto comum dessa trajetória é que, a cada experiência profissional, Mauro inspirava-se a desenvolver novas competências dentro da Concremat, que hoje destaca-se por sua excelência na área de engenharia e meio ambiente.

Certa vez Mauro Viegas foi chamado para fazer um laudo para a Secretaria de Viação e Obras Públicas da Prefeitura do Distrito Federal (no Rio de Janeiro). Ficou preocupado, pois seu laudo seria confrontado com o realizado pelo próprio secretário. Mesmo assim, não se intimidou em relatar o que tinha visto. Ao entregar o relatório, não somente foi elogiado como convidado a ser o novo adjunto.

Quando o então prefeito João Carlos Vital tomou posse, à frente da prefeitura do Rio de Janeiro, convidou-o a ocupar o cargo de chefe de serviço do Departamento de Parques e Jardins. Na ocasião ele espantou-se: “Mas eu não entendo nada de plantas!”. “Mas vai entender”, respondeu o político.

Participou do desenvolvimento do Plano Integrado da cidade, com base no Plano 1000, onde constavam soluções urbanísticas como a construção do Metropolitano, da adultora do Guandu; o desmonte do Morro de Santo Antonio; construção das avenidas Radial-Oeste; Perimetral Norte-Sul; abertura dos Túneis Rebouças e Uruguai-Gávea; implantação dos serviços de trólebus; conclusão das avenidas Brasil e Bandeiras e duplicação da avenida Grajaú-Jacarepaguá, entre outras ações.

Essa atuação na área de parques motivou o professor Mauro a estudar paisagismo, levando a conhecer os jardins de Paris, da França. Trouxe de lá ideias, como a criação do guarda de jardim, para preservar as áreas da depredação. Em 1952, ele assumiria a Direção do Departamento de Parques e Jardins da cidade, ocasião em que procurou adquirir elevadores importados para realizar a poda das árvores.  No subúrbio, promoveu o paisagismo em terrenos abandonados para evitar que fossem transformados em lixões. Enfrentou pela primeira vez na cidade o comércio de rua, que, além de sujar as áreas públicas, colocava em risco a vida com ligações elétricas irregulares e produtos mal acondicionados.

Em 1954, o prefeito coronel Dulcídio do Espírito Santo Cardoso optou por mantê-lo no cargo, e lhe pediu uma proposta de arborização da avenida Presidente Vargas - destinada por Getúlio a desfiles militares. O prefeito teria perguntado quanto custaria. “Nada, podemos plantar pelo Departamento de Parques e Jardins”. Ouviu então a seguinte resposta: “Mas seu antecessor me disse que custava milhões!”. Em 10 dias, tudo tinha sido plantado.

A serviço público

Devido ao bom trabalho na gestão do prefeito José Joaquim de Sá Freire Alvim (1958-1960), ele foi nomeado Secretário Geral de Viação e Obras Públicas do Distrito Federal, contemporâneo aos arquitetos Affonso Reydy e Oliveira Reis. Nesse papel, passou a conviver com outros departamentos, como edificações, obras viárias, transporte, saneamento, esgoto, concessões, parques e jardins, chegando a defender a construção do metrô. Mas dessa vez ele perdeu a batalha.

Na mesma ocasião assumiu a presidência da 5ª região do Crea, constatando irregularidades e até demitindo pessoas, o que lhe provocou ameaças de morte. Certo dia recebeu a visita do senador Arnon de Mello. “Boa coisa não é”, pensou o professor diante do homem que estava construindo um shopping center na rua Siqueira Campos, o primeiro da cidade. A obra estava embargada por estar acima do gabarito. Sem se abater, o professor disse delicadamente ao empresário: “Talvez o senhor não saiba, mas devem ser demolidos os dois pavimentos para que eu permita a continuação da obra”.

Com o crescimento da população carioca, que em uma década passou de  1.750.000 para 2.350.000 de habitantes, a  cidade sofria com a falta de água, principalmente durante a época de estiagem dos mananciais. Chamado a falar sobre o problema de enchentes na Câmara do Distrito Federal, abordou questões relativas às canalizações pluviais e presença de favelas, que ampliavam o acúmulo de lixo nas ruas. “É indispensável o início das obras que solucionem de vez o problema das enchentes”, informando que tinha levado ao prefeito um plano de obras de drenagem de execução imediata.

Surgia assim o Sistema Guandu, um sistema misto de adução que começava na estação do Guandu, que propunha  a travessia por meio de um túnel-canal o maciço rochoso do Marapicu e, após vencer, em túnel sobre pressão, a baixada do Guandu Mirim, penetrava novamente em túnel-canal no âmago da extensa cadeia montanhosa que se desenvolve de Santíssimo até o Engenho Novo, com uma pequena descontinuidade em Jacarepaguá. O projeto foi realizado pelos engenheiros Ataulpho Coutinho e Marcelo Brandão – do departamento de Águas da Secretaria dirigida pelo arquiteto Mauro Viegas, e aprovado pelo prefeito Negrão de Lima. Ao assumir o governo, Carlos Lacerda chegou a pedir novos estudos. Mas no final das contas seus técnicos admitiram que aquela era a melhor solução.

Construção de conjuntos habitacionais
Em 1966, Mauro Viegas assumiria o cargo de diretor técnico da Companhia de Habitação do Estado da Guanabara (Cohab),  na gestão do governador Negrão de Lima, com a missão de conter a ocupação irregular, principalmente em áreas de risco. A empresa tinha sido criada na gestão de Carlos Lacerda.

O primeiro problema a ser enfrentado era a ocupação nas encostas dos morros, com materiais muito frágeis em áreas sujeitas a desabamento. Numa noite de chuvas intensas, Mauro passaria uma noite inteira no Cantagalo, tentando convencer os moradores de que poderiam morrer. Um parecer técnico do Instituto de Geotécnica condenava radicalmente as áreas devido à presença de pedras que aumentavam a chance de deslizamento.  Foram removidos 80 barracos e ele chegou a ser ameaçado por uma moradora com uma tesoura.

A gestão anterior, do governador Lacerda, já tinha buscado uma saída para a questão habitacional, nos moldes do que tinha sido feito na Europa e Estados Unidos, com conjuntos residenciais para a população de baixa renda localizada na periferia da cidade.

Havia inclusive um convênio com a United States Agency for International Development para o financiamento de conjuntos, dando vida à Vila Kenedy, em Senador Camará, a Vila Aliança, em Bangu, e a Vila Esperança, em Vigário Geral, além da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, que sozinha recebeu 63 favelas extintas. A erradicação das favelas era considerada a melhor solução na época, em vista do risco e da insegurança que geravam.

Quando Mauro assumiu a presidência da Cohab, esse planejamento já estava em prática. Ele acompanhou de perto a construção da Cidade de Deus, próximo a Jacarepaguá, projetada dentro dos padrões convencionais de moradia, com condições de higiene mais adequadas em comparação com as da favela.  No entanto, alguns problemas se revelariam.  Muitos moradores se ressentiram pela distância de sua nova moradia em relação ao trabalho. Além disso, muitos não sabiam usar os equipamentos sanitários, arrancando os para vender ou até utilizando como ornamentos. “O homem, para ser feliz, precisa de trabalho, teto e transporte. A função da Cohab era dar o teto e nós demos. Mas infelizmente a cidade não investiu no transporte de massa, acarretando um problema seríssimo”, diria Mauro Viegas.

Depois dessa vivência, Mauro se conscientizou de que o problema não era a favela em si, mas a carência habitacional e de infraestrutura como todo. Sugeriu ao então governador Negrão de Lima a elaboração de um Plano Diretor que integrasse os diversos órgãos envolvidos, como saneamento e transporte, além de dar voz também ao próprio morador da favela.

Pensando nesse plano diretor, ele reformulou o projeto da Cidade de Deus e chegou a implantar um cinema, posto médico, creche e sede administrativa, além de área de lazer e praças ajardinadas. Mas, em 1968, ele entregou o seu cargo, encerrando sua passagem pela vida pública, após ter sofrido até ameaças.

Foco em tecnologia
Voltando-se para sua empresa, a Concremat, sigla criada apenas em 1972, focou o desenvolvimento da área de tecnologia na área do concreto. No início da década, ela fora chamada para analisar o concreto utilizado no elevado Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, que desabou antes de ser concluído. Depois de estudos, chegou ao emprego de resinas sintéticas, segundo a proposta do engenheiro francês Freyssinet. O engenheiro então exigiu o acompanhamento da Concremat nos trabalhos de reparo. Mais tarde seria criada a Concremat Engenharia e Tecnologia, atuando também na área de gerenciamento.

Já em 1978, ela foi convidada a participar do debate em torno da recuperação da Ponte de Bertioga, que balançava. Após a conclusão dos ensaios, a empresa descartou a necessidade de nova construção, sendo possível a recuperação, contrariando diversas opiniões. A empresa foi convidada a realizar o serviço, apesar de nunca ter feito isso antes. “Realizávamos a concretagem durante a madrugada para endurecer rápido, pois no dia seguinte a pista tinha de ser liberada”, lembra. Pela primeira vez utilizava-se cabos esternos para reforço de ponte. Assim surgiu a Concrejato, criada para atuar na área de patologias do concreto.

Na área de mineração, participou do projeto Ferro-Carajás, desenvolveu  um plano de desenvolvimento sustentável dialogando com a comunidade local. Hoje o escopo técnico da Concremat passa por engenharia, inspeções, laboratórios, obras e geotécnica, além do meio-ambiente. Aplicou esse know-how no trabalho de remoção da população nas obras do Trecho Sul do Rodoanel, em São Paulo, assim como atuou no gerenciamento nas obras do PAC Alemão.

Em 1984, aos 65 anos, Mauro Viegas passou o controle da empresa ao filho Mauro, a fim de dedicar-se as questões ambientais, sua paixão desde que começou a atuar na área de parques. Engajou se nos movimentos de preservação dos recursos hídricos, atuando em organismos do terceiro setor e conselhos ambientais, destacando seu empenho pela preservação do rio Paraíba do Sul, o que levou à criação do Comitê de Estudos Integrados do Vale do Paraíba do Sul.

Aos 96 anos, o professor Mauro não se cansa. Continua indo à sede da Concremat, ainda frequenta o universo acadêmico, e mantém o interesse no futuro do País. “O Brasil é muito rico, mas, para conseguirmos avançar, é preciso dar condições de educação para a população, principalmente os jovens, que representam o futuro da nação”.

 

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