Assessoria de Imprensa
01/10/2026 00h01
Mesmo que uma fábrica de cimento utilizasse somente energia de fontes renováveis, grande parte de suas emissões de CO₂ continuaria existindo. Isso acontece porque o carbono não vem apenas da energia consumida, mas da própria química do processo de produção.
A jornada do cimento até o canteiro de obras começa na transformação do clínquer, seu principal componente. O processo de produção de clínquer exige que a rocha calcária, principal matéria prima, seja processada em um gradiente térmico severo, atingindo cerca de 1.450°C.
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Mesmo que uma fábrica de cimento utilizasse somente energia de fontes renováveis, grande parte de suas emissões de CO₂ continuaria existindo. Isso acontece porque o carbono não vem apenas da energia consumida, mas da própria química do processo de produção.
A jornada do cimento até o canteiro de obras começa na transformação do clínquer, seu principal componente. O processo de produção de clínquer exige que a rocha calcária, principal matéria prima, seja processada em um gradiente térmico severo, atingindo cerca de 1.450°C.
Durante essa transição se desencadeia as reações de calcinação e clinquerização, que inevitavelmente liberam dióxido de carbono na atmosfera. A magnitude desse impacto é o que dita os rumos da engenharia moderna. De acordo com a Global Cement and Concrete Association (GCCA), essas emissões de processo respondem por cerca de 60% do total associado à fabricação do cimento.
“Por isso, substituir combustíveis fósseis ou utilizar energia renovável é importante, mas não resolve sozinho o problema”, explica a engenheira Viviani Meneghin Magalhães, que atua há mais de 20 anos na indústria cimenteira. “Parte significativa das emissões está diretamente ligada à transformação da matéria-prima”, ressalta.
A complexidade aumenta diante da importância do concreto para a sociedade. Considerado o material produzido pelo ser humano mais utilizado no mundo, ele soma aproximadamente 14 bilhões de m³ produzidos por ano e está presente em casas, hospitais, estradas, pontes, sistemas de saneamento e obras de infraestrutura.
“Não se trata simplesmente de deixar de produzir, mas de encontrar maneiras de atender às necessidades de habitação, urbanização e infraestrutura com um impacto ambiental cada vez menor”, afirma Viviani.
Segundo a especialista, a descarbonização do setor dependerá da combinação de diferentes estratégias, partindo da redução da proporção de clínquer no cimento e substituição parcial por outros materiais cimentícios, como pozolanas, escórias, filler calcários.
“Essa é uma das principais formas de reduzir as emissões sem comprometer o desempenho do produto. Assim se contribui para produção de cimentos com menor pegada de carbono”, diz a especialista. Outro ponto crucial é a ampliação do uso de matérias-primas alternativas, com a substituição de insumos tradicionais — como calcário, argila e corretivos de ferro, sílica e alumínio — por materiais alternativos pré-descarbonatados.
“Ao reaproveitar resíduos que antes seriam descartados, a indústria não apenas reduz a extração de recursos naturais, mas também mitiga drasticamente as emissões de CO₂ em toda a cadeia produtiva”, avalia a engenheira. “Trata-se de um duplo ganho ambiental: eliminamos o passivo do descarte urbano ou industrial e entregamos uma pegada de carbono significativamente menor para o planeta”, afirma.
Tornar os processos mais eficientes, evidentemente, também integra a lista. “Modernização de equipamentos, otimização dos fornos, recuperação de calor e uso de combustíveis alternativos ajudam a reduzir o consumo de energia e as emissões da produção”, enumera Viviani Magalhães.
Além disso, é necessário capturar o carbono por meio de tecnologias de captura, utilização e armazenamento (Carbon Capture, Utilisation and Storage, conhecidas pela sigla CCUS), consideradas estratégicas por permitirem atuar sobre as emissões difíceis de eliminar, especialmente as geradas pela calcinação.
Por fim, considerar todo o ciclo da construção pode ajudar na missão. “Projetos que utilizem o concreto de maneira mais eficiente, estruturas mais duráveis, reciclagem e reaproveitamento de materiais também são fundamentais para reduzir o impacto da cadeia”, comenta.

Para Viviani, um dos principais obstáculos é fazer com que soluções promissoras ultrapassem o ambiente de pesquisa e sejam incorporadas à produção em larga escala. “É preciso considerar a disponibilidade das matérias-primas, o desempenho dos produtos, as normas técnicas, os custos e a capacidade produtiva”, acentua. “Inovar no cimento não significa apenas encontrar uma solução tecnicamente melhor, mas conseguir aplicá-la na escala de que o mundo precisa”, ressalta.
A GCCA estabeleceu como objetivo alcançar emissões líquidas zero na indústria mundial de cimento e concreto até 2050. Para chegar lá, será necessário avançar simultaneamente em diferentes frentes, pois – segundo a especialista – não existe uma única tecnologia capaz de resolver o problema.
“A transformação passa pela combinação de novos materiais, processos mais eficientes, captura de carbono e mudanças em toda a cadeia da construção”, assinala. “O desafio é continuar produzindo um material essencial para a sociedade, mas com uma pegada ambiental cada vez menor”, conclui a engenheira.
01 de outubro 2026
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