Voltar

Jogo Rápido

Revista Grandes Construções Edição 82 - 08/2017

Economia volta a crescer, apesar da política

A Revista Grandes Construções e Sobratema realizaram, no dia 9 de agosto, no Espaço Apas, em São Paulo o fórum sobre o tema “O papel da Infraestrutura na Retomada do Crescimento do Brasil”, que atraiu mais de  210 executivos e empresários dos setores da construção e da infraestrutura. O grande destaque do evento foram as palestras da jornalista Cristiana Lôbo e do economista Ricardo Amorim, que deram um show de informação, deixando claro que hoje o maior entrave para o crescimento do Brasil está no intricado cenário político, para o qual não se tem nenhuma sinalização de solução até as próximas eleições presidenciais, e até mesmo após esse período. No entanto, e apesar deste cenário adverso, a economia começa a dar os primeiros sinais de recuperação de emprego e consumo.

A notícia boa para setor é que o desempenho da cadeia do agronegócio agora começa a se refletir em novo fôlego para as atividades industriais. Ricardo Amorim chamou a atenção para a descentralização da economia, com o surgimento de novos pólos produtivos, ressaltando que das 20 cidades que mais geraram empregos, nos últimos meses, 19 se localizam no interior do país. Ele destacou que o vigor do agronegócio puxou para cima a demanda por investimentos em infraestrutura, principalmente para atender às necessidades de transporte nas novas fronteiras agrícolas, até porque o interior do país possui um déficit histórico de infraestrutura.

Enquanto isso, na política, o cenário brasileiro é de absoluta incógnita, segundo Cristiana Lôbo. Ela ressaltou a absoluta falta de lideranças políticas capazes de conduzir o país nesta “travessia”. Tampouco é visível a impossibilidade de renovação política no Brasil, como ocorreu na França com a eleição de Emmanuel Macron, já que as regras atuais impedem a ascensão de candidatos independentes, sem vinculação partidária. Cristiana Lôbo lembrou que a eventual reforma política, defendida pelos congressistas, não pressupõe uma mudança nesse cenário.

A jornalista criticou a falta de marcos regulatórios e de segurança jurídica, capazes de atrair os investimentos em infraestrutura, que envolvem grandes volumes de recursos e demorados prazos de retorno. E citou como exemplo positivo o Chile, com uma tradição de regras estáveis independente da corrente política no poder, o que se transforma em principal fator de atração investimentos externos.

Falando sobre o déficit fiscal, que em sua opinião é outro grande obstáculo ao desenvolvimento do Brasil, Cristiana Lôbo ressaltou o “rombo” da previdência do funcionalismo público no desequilíbrio das contas públicas, e a dificuldade dos governantes e da classe política em promover mudanças nesse campo, seja por seus próprios interesses, seja pela força política deste setor, gerando uma situação em que a maioria sustenta os privilégios de uma minoria.

Crescimento de 5%

Segundo Ricardo Amorim a economia brasileira já superou o nível Zero da crise econômica e começa a dar sinais claros de recuperação, com possibilidade inclusive de crescimento do PIB ainda neste ano. Essa tendência de recuperação era mais clara no início do ano, destacou ele, mas as expectativas diminuíram a partir das denúncias de corrupção envolvendo o presidente Michel Temer, feitas pela JBS, jogando o país, novamente, em um cenário nebuloso. Entretanto, aos poucos os indicadores econômicos se estabilizaram apontando para um certo descolamento da economia em relação à política, o que evidentemente tem um limite.

Amorim destacou as recentes notícias de retomada do emprego, inflação baixa, estabilidade do câmbio, movimentação das instituições bancárias para expansão do crédito, atração de investimentos externos, desempenho do Agronegócio e uma redenção da indústria, com reinício do processo de industrialização.

O economista destacou a necessidade das mudanças na Previdência Social, como um dos grandes entraves para a solução da questão fiscal brasileira, o que deverá se manter como um dos pontos críticos no futuro, caso as reformas não sejam realizadas, ou o sejam parcialmente. “A Previdência ainda será reformada muitas e muitas vezes”, disse.

Ele traçou uma linha histórica para demonstrar que há um padrão de crescimento da economia, imediatamente ao fim de cada crise do país, sempre em torno de 7%. Esse movimento cíclico, segundo Amorim, fortalece a crença de que o Brasil pode atingir um crescimento de até 5% ainda neste ano, se não ocorrer mais nenhum “fato novo muito dramático” no campo político.

Amorim celebrou o fato de que o agronegócio brasileiro começa a entrar numa fase de industrialização, o que se refletirá em maior investimento em infraestrutura para atender a essa explosão da produção brasileira de commodities. E instigou o empresariado de infraestrutura a aproveitar as oportunidades que se abrem com essa oxigenação econômica e esse novo perfil agro-industrial brasileiro, que inverte o vetor do desenvolvimento das cidades para o campo. “Não se deve esperar pelas novas oportunidades, mas buscar e criar suas próprias oportunidades”, alertou o palestrante.

Dragagem sob investigação

A Polícia Federal está investigando denúncias de fraude nas obras de dragagem do Porto de Itaqui em São Luís (MA).  A investigação batizada de Operação Draga, teve início com as declarações de um ex-funcionário da Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap), que administra o porto, segundo a qual, o andamento da obra tem sido deliberadamente omitido, para ocultar irregularidades.

A fiscalização da execução da dragagem se dá através do processo de batimetria, que consiste na medição das profundidades dos mares e lagos por meio de referenciação por ultrassons, antes, durante e após a execução. A medição apenas após a execução das intervenções não permite verificar quantos metros cúbicos de sedimentos foram dragados. No entanto, segundo a denúncia e os indícios colhidos durante a investigação, a empresa que deveria fazer a batimetria não a estava realizando, mas apenas copiando os dados fornecidos pela executora da obra.

Há, também, indícios de manipulação na sindicância instaurada para apurar os fatos referentes à fiscalização e sobre-preço dos custos de mobilização/desmobilização e da obra de dragagem propriamente dita. O custo de mobilização/desmobilização foi de R$ 32 milhões, superior ao custo da obra em si, de R$ 28 milhões. Em obras similares, os valores envolvidos foram bem menores. Também foram observados indícios de sobre-preço do material dragado em comparação com obras similares.

A empresa belga Jan de Nul, responsável pela execução dessa obra, já foi citada em colaborações premiadas no contexto da Operação Lava Jato em fraudes similares pelo Brasil.